segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Bipolar

Recentemente assisti à um vídeo onde um rapaz recitava “Se eu fosse eu” de Clarice Lispector e a pergunta se juntou à névoa que pairava sobre mim há alguns dias, é como se essa crônica tivesse colocado em palavras um sentimento que estava me atormentando de longe, quase que despercebido.

Quanto mais o tempo passa, menos me sinto “eu” e mais eu me pergunto se esse “eu” que eu me lembro de fato existiu, ou se naquela época ele me agradava, porque parece sempre que o passado era melhor, sendo que no presente estou sempre insatisfeita, um interessante paradoxo.

Com a tecnologia, fica mais fácil enfiar a cara no TikTok do que fazer coisas que, “se eu fosse eu”, eu faria, como: ler (às vezes leio, confesso); escrever; desenhar, pintar; cantar; dançar; aprender a tocar Ukulele; correr; lutar... Essas foram as coisas que me vieram fácil à memória, de que eu gosto ou gostaria de fazer. Por que não as faço?

Se eu fosse eu, eu acordaria às 6h30 e estaria na academia às 7h de segunda à sexta; aos sábados eu acordaria às 7h30 e estaria na academia às 8h e aos domingos eu correria pela manhã. Se eu fosse eu, eu comeria saudável e manteria uma rotina diária composta de: trabalho, estudo e lazer (esses citados no parágrafo acima). Se eu fosse eu, eu economizaria dinheiro e viajaria mais.

Mas aí eu me lembro que sou bipolar. Como alguém pode ser o próprio alguém, sendo bipolar? Como um bipolar pode separar o que é ele do que é sintoma? Eu sei que já tá ficando chato o fato de que eu mal apareço e, quando apareço, é pra falar da bipolaridade, mas o que mais eu posso fazer se esse transtorno realmente transtorna a minha vida? Será que quando o transtorno abriu a porta para entrar, eu saí pela mesma porta?

Tem dias que esse diagnóstico é leve, que eu quase me sinto como se eu fosse eu, são os dias bons. Em outros dias, eu me sinto tão pequena, insignificante e frágil que o vazio toma conta até da tristeza. Enfim, se eu fosse eu, eu faria as pazes com a bipolaridade, a pediria um espaço, entraria de novo em mim e faria morada, a deixando com apenas um pequeno cômodo para existir.

domingo, 28 de setembro de 2025

Mania

Acho que a parte mais difícil da bipolaridade é sentir falta da mania. Há alguns dias venho tendo esse sentimento agridoce, um sentimento quase proibido, afinal, como e para quem eu poderia confessar isso, sem receber de volta algum tipo de julgamento?

Como eu poderia sentir falta de algo que prejudicou minha saúde, minhas relações, meu trabalho, meu raciocínio? Como posso sentir falta de um momento onde, claramente, eu não era mais eu? Talvez porque ali, dentro da loucura da minha cabeça, eu me sentisse mais eu do que nunca, mesmo que para os outros, eu não fosse.


O que significa ser eu, na verdade? Porque, quando não estou em mania – o que, até o momento, aconteceu de cinco em cinco anos, por três vezes – eu estou por muito tempo depressiva, ou preguiçosa, ou sedentária; eu sou essa pessoa? Porque eu me lembro de já ter sido eu e eu não era assim.


Eu tinha vontade de viver, de trabalhar, de cuidar de mim e da minha casa; tinha vontade de me movimentar, de ler e ouvia músicas todos os dias; eu reclamava sim, mas conseguia sonhar e me organizar pra tirar esses sonhos no papel... Tudo isso antes do primeiro surto.


Foi como se, por ter sido tanto eu, eu tivesse desbloqueado uma versão turbinada de mim mesma. E foi horrível. E maravilhoso. O medo de voltar para isso sempre foi tão real quanto a certeza de que vivi os melhores dias.


De fato, o que tem de bom em depender dos outros? Em ser altamente medicada? Em não conseguir dormir? Em ser tida como louca pelo mundo à sua volta? Mas o que tem de ruim em receber tanta atenção e cuidado? Em poder agir como criança? Em viver conforme a realidade da minha cabeça? Em ter tempo para criar, sonhar, produzir... Viver?


Parece que, após ter entendido que eu não podia ser tanto eu quanto sou, pois isso me traria riscos de ter outro episódio de mania, menos eu fui me permitindo ser. Hoje eu sei que não posso ficar sem remédios, não posso fugir da rotina de sono, não posso abraçar muitos planos e projetos ao mesmo tempo. Com isso, eu acabo fazendo o mínimo, sempre.


Quanto menos eu faço, por medo de ter outro episódio que, para além de traumático, é libertador, menos eu me sinto eu; quanto menos me sinto eu, mais sinto saudades da mania, pois, além de eu ser produtiva e me sentir eu, viva, disposta, eu fazia sentido, talvez não para os outros, mas para mim. É como se a mania tivesse se tornado meu referencial de normalidade porque nela eu já não tinha medo (da própria mania, que ironia).


Eu sei, racionalmente, que se eu acordar cedo, fazer atividade física, estudar, trabalhar, cuidar da casa, ter um momento de lazer e repetir isso todos os dias e todas as semanas, eu não vou, necessariamente, voltar para aquele lugar. Mas eu sinto que vou, porque é como se, quanto mais eu for eu, enérgica, feliz e produtiva, mais chances eu vou ter de querer abraçar o mundo com as pernas e... Me tornar mais eu do que nunca.

domingo, 14 de setembro de 2025

O amor é o segredo de tudo

Eu amo.
Tenho duas frases preferidas que ilustram:
“A vida é desse caos todo e se não fosse pra amar, eu nem viria.”;
“O amor é o segredo de tudo.”.
E eu amo.

 Há algum tempo, soterrada na minha própria lamentação e desânimo, venho me esquecendo do quanto eu amo – apesar de ter a segunda frase tatuada na pele, visível, não a lia há algum tempo; cheguei a pensar recentemente: “Acho que não sinto mais esse amor que já senti.”, mas, entre uma música e outra, entre momentos de vislumbre do horizonte, eu reencontrei esse amor dentro de mim.

 Acontece que muita gente que eu amei acabou indo embora, talvez porque eu não soube amar direito – entenda direito como: da forma que essa pessoa gostaria ou precisava – ou porque essas pessoas não souberam lidar e me amar como eu precisava ou, simplesmente, porque a vida abre bifurcações e nós seguimos sempre o nosso próprio caminho, nem sempre junto com todos aqueles que gostaríamos.

 O fato é que, por ter passado por tantos lutos em poucos anos, luto daqueles que estão vivos, mas decidiram ir embora, eu fiz a maior burrice que julgo que alguém possa fazer: me recolhi, me apequenei, entendi que não valeria a pena amar, porque o amor me traria frustração, decepção, fins. Mas, não amar seria não ser quem eu sou e não ser quem a gente é, é o atalho para a tristeza.

 Então, voltei a amar. Mas, perceba: ao dizer que o amor é o segredo de tudo, entendemos que o amor está em tudo e no centro de tudo. Não é sobre amar somente o que é correspondido, somente o que é prazeroso e bonito, é sobre amar a tudo e completamente. Amar até o inexiste.

 Eu não conseguiria te explicar, nem que eu quisesse, mas eu te desejo que todo o amor do mundo invada todo o seu ser até que você entenda que você é todo amor e que amar é para você – assim como é para mim – a tradução do seu ser. Que você respire amor, que você seja amor; que o amor seja o segredo de tudo para você também.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

A despeito de nós

"As coisas são e tudo floresce a despeito de nós."
Sete Vidas – Pitty

Estive com essa frase na cabeça há alguns dias, talvez não com a mesma interpretação que a Pitty quis trazer, mas como uma materialização em palavras de um emaranhado de pensamentos e sentimentos que ando tendo a respeito de fins, sejam de ciclos ou de relacionamentos.

Eu sou do time “deu certo enquanto tinha que dar” e não do time “perdi meu tempo”, pois acredito que o segundo grupo tende a sofrer mais com os finais, afinal, tudo de bom que existiu, automaticamente cai por terra e deixa de ter existido – o que para mim não faz sentido.

Exemplo: em minha cidade existiram construções que hoje não existem mais, mas elas estão guardadas em fotografias antigas que meus pais guardam ou em grupos do Facebook que guardam a memória da cidade; isso quer dizer que, por que não existem mais, nunca existiram? Não. Logo, quando as coisas acabam, elas não deixam de existir.

Assim como a morte. Ela por si só não apaga a existência daquele que partiu, por outro lado, quem ficou vai passar pelo luto. O luto existe para todas as mortes que enfrentamos, sejam elas literais ou não.

Andei pensando em tudo isso porque enfrento mais um fim, inevitavelmente; a vida é cheia desses momentos. Tento me acalentar pensando que isso já existiu e, então, ainda existe, mesmo que só em fotografias e dentro do meu coração, talvez não no coração de quem partiu, figurativamente, nesse caso.

E por que todo esse sentimento incômodo de perder alguém que se ama e esses pensamentos a respeito de que a relação continua existindo, em algum lugar desse Universo (mesmo que seja o meu Universo interno), me fizeram lembrar desse verso dessa música?

Porque, claro, as coisas são como eram e como sempre serão, pelo simples fato de um dia já terem sido; e são a despeito de nós, a despeito da vontade de acreditar que elas nunca foram, simplesmente porque deixaram de ser, no presente; a despeito do sentimento de perda de tempo ou de que tudo foi uma mentira. Um dia elas foram. E foram de verdade.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Notas

Releio o que escrevo com inveja e com pesar. Inveja de escrever tão bem quanto eu julgo ter escrito e pesar por saber que se não escrevo mais, não tenho nada além de mim mesma a culpar.

Eu comecei escrevendo para colocar tudo para fora, não me importava quem leria – ou se alguém leria. Depois, passei a publicar em um blog, com o simples intuito de ter meus textos organizados, de fácil acesso. Então surgiu a oportunidade de publicá-los em um livro, tão bem recebido e elogiado.

Depois disso, parecia o fim. Era como se eu já tivesse cumprido o propósito inicial. Mas, não seria ele o de apenas colocar tudo para fora? O livro me trouxe uma sensação de dever cumprido, mas ao mesmo tempo era como se me dissesse: "Ok, todo mundo já leu o que você quis dizer, e agora?". E eu não tinha resposta pra essa pergunta.

Agora mesmo, quando me surgiu a ideia desse texto, busquei por alguns segundos o aplicativo "Notas" em meu celular, que por anos foi meu melhor amigo. E, finalizando esse texto, me pego pensando que ele vai ficar esquecido nesse aplicativo ou, no máximo, organizado na pasta de crônicas em meu notebook. Não que alguém de fato acessasse aquele blog, mas que fim fúnebre para qualquer escrito, ser mantido preso pelo próprio autor, sem a menor possibilidade de ser lido.

Talvez só o que me falte é trazer novamente a possibilidade de alguém ler, nem que seja eu mesma, mas por fora dos meus próprios acessos pessoais, on-line.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Silêncio

Hoje eu decidi me calar, ou melhor, a minha voz me calou por mim – engraçado que, em dois dias, farei 29 anos e eu estou em um momento de introspecção, sem vontade de comemorar esse ano; foi quase como se meu corpo tivesse entendido o recado e falado: “Pode deixar, vou te deixar uns diazinhos sem voz e de cama.”. Sou grata por isso, então.

Geralmente em épocas de aniversários eu fico nostálgica, acho que todos ficamos, não? Mas esse ano parece que a coisa tá pegando firme aqui dentro. Porque foi um processo tão visível (para mim mesma, pelo menos) de transformação, dentro desses poucos anos que se deram dos 20 para cá, que hoje eu não reconheço aquela menina que eu fui.

Só que eu também sinto saudades dela – não por inteira, mas de alguns aspectos dela. Da doçura, misturada com loucura e inconsequência. Ela sentia tudo à flor da pele, eu não. Ela chorava, sentia raivas desmedidas e tristezas insuportáveis, eu não. Entretanto, ela não era tão feliz; hoje eu tenho crises de ansiedade de tanta alegria – chega a ser triste que minha alegria me desencadeie essa resposta, mas é a mais pura verdade, no fim das contas eu dou risada e abraço essa alegria.

Eu sinto falta das palavras dela na minha cabeça, da facilidade que ela tinha em fazer um texto incrível do absoluto nada, ela acordava no meio da noite com ideias de textos e os fazia em um piscar de olhos! Agora, além de eu demorar meses para conseguir ter a ideia de algum texto, quando os releio ao final da produção, sinto que estão todos meia boca – fazer o quê? Vai ver perdi o jeito da coisa, quando aquela loucura foi embora deve ter levado as inspirações junto.

Mas não me sinto mais tão triste em não escrever tanto. Em algum momento, há muitos anos, aquela menina me falou o seguinte: “Você não precisa escrever tudo, pois tudo já está escrito.”. E eu fiquei em paz com isso. Não é meu papel fazer descobertas revolucionárias ou escrever os textos mais incríveis a serem lidos, eu posso me aposentar ou então continuar de forma medíocre, fica a meu critério.

Como as escritas sempre foram mais para mim do que para você – que me acompanhou aqui por tantos anos e hoje já nem lembra que eu escrevia – eu sigo escrevendo, de tempos em tempos, com a qualidade cada vez mais duvidosa, agradecendo aquela menina de 20 anos por ter me trazido até aqui de uma forma tão intensa e pura – para ela, todo o meu amor.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Rato na roda

Querendo voltar para uma jornada fitness, enquanto estava na academia, pensei que tudo na nossa vida é um ciclo de repetições, quase como se fôssemos o rato na roda: acordar, comer, trabalhar, se movimentar, cuidar de si, dormir, e repetir, dia após dia.

Quase como se estivéssemos ensaiando para uma apresentação de ballet, onde ficamos repetindo os movimentos metodicamente, para atingir a perfeição. Ensaios, dia após dia, para uma execução de maestria.

Lembrei que fazia muito tempo que não escrevia, me perguntei: será que ainda levo jeito pra isso? E conclui que, possivelmente, não. Esse músculo está enferrujado. Enquanto, anos atrás, tudo me trazia motivos para escrever, hoje tenho dificuldade em organizar um pensamento.

Então, quer dizer que para que sejamos bons em qualquer coisa que seja, precisamos nos permitir estar naquela roda: repete e repete. Quando nos damos por vencidos por alguma coisa e deixamos aquilo de lado, possivelmente essa engrenagem ficará enferrujada e cairá em desuso.

Mas, qual o sentido, então, de fazer tudo para depois fazer de novo e de novo? Bom, essa resposta eu não posso te trazer com certeza. Mas arrisco em dizer que provavelmente é para que possamos melhorar e evoluir sempre.

A vida se dá pelo movimento, a evolução ser dá pela execução. E quanto mais fazemos alguma coisa, dia após dia, semana a pós semana, mês após mês, ano após ano, mais estaremos adaptados para executar aquela tarefa com maestria, com naturalidade e familiaridade.

No mais, dentro desse ciclo de repetições, podemos nos permitir admirar toda e qualquer mudança, singela, mas significativa, pois são essas pequenas nuances que nos mostram que, de fato, não faz parte de um repetir, mas sim de um viver o novo constantemente. Mesmas ações, mas nem sempre o mesmo resultado, muito pelo contrário: a cada dia a vida se mostra a nós como um presente a ser desembrulhado e admirado, nos seus menores detalhes.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Behavorista desde criança

Costumo brincar, dizendo que sou Behavorista desde criança, mas percebo o quanto de verdade existe nisso. Lembro que, desde muito nova, sempre gostei de reparar nas pessoas ao meu redor, no comportamento delas, na interação entre elas. Sou uma pessoa extremamente extrovertida, porém, às vezes gosto de ficar de canto, observando.

Quando adolescente, reparava nas pessoas na rua, morria de medo de acabar sendo mal interpretada e que alguém viesse discutir comigo, ou que gritassem: “Tá olhando o que?”. Já imaginava minha possível resposta: “Estou olhando, porque te achei bonito(a).”, só pra ver a pessoa ficar sem graça e, também, poder alegrar o dia de alguém, mas isso nunca aconteceu (ainda bem).

Mais velha, saindo para bares e baladas com meus amigos, sempre me percebia olhando meus amigos, admirada, enquanto eles interagiam entre si; olhando para as pessoas dançando, flertando, conversando. A sensação de ser expectadora e de ficar me perguntando porque cada um age e reage de tal forma diante de cada situação, sempre foi meu passatempo favorito.

Muito se sabe que somos seres sociais, que precisamos de pessoas para viver bem, que passamos grande parte dos nossos dias pensando sobre outros seres humanos. Além de pensar sobre pessoas, sempre pensei no comportamento delas; sempre tive curiosidade de perguntar o que se passa na cabeça de pessoas que vejo na rua, algumas alegres, outras mal humoradas.

Meu grande amor é também meu objeto de estudo, agora. Sou fascinada pelo ser humano e mais ainda pelas suas maneiras de se comportar, por isso afirmo: eu já era Behavorista antes de ser; já era analista do comportamento desde antes mesmo sonhar que a Psicologia existia e que ela me encontraria. Meu amor pelo Behavorismo chegou logo no primeiro semestre, me encontrei com a pessoa que eu estava predestinada a vir a ser.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Felicidade solo

Eu passei o final de semana mais incrível da minha vida, esse texto será apenas um lembrete para o meu eu do futuro: você merece ser feliz! Você merece estar rodeada de pessoas que te amam e te querem bem! Deixe qualquer um que fuja disso ir embora; dói, no começo, mas depois é libertador.

Sexta-feira viajei com uns amigos até Praia Grande, ficamos até hoje, domingo. Quase não fui, pois segunda apresento meu TCC, mas me dei ao luxo de aproveitar também outras coisas da vida, além de que, o mar é o meu melhor lugar do mundo.

Sábado a tarde, recebi a mensagem mais linda e importante dos últimos seis anos: uma proposta de emprego como Psicóloga! Com direito a um documento que comprova que a única coisa que falta para eu começar a trabalhar é meu CRP, para que a faculdade e o Conselho adiantem o processo.

Hoje, quase não peguei no celular para conversar com ninguém. Não devo satisfação para ninguém e ninguém me deve nada. Por toda minha vida eu acreditei que isso era solidão, hoje eu percebi a beleza da solitude.

Estou solteira há sete meses, há uns seis passo pelo processo de autoconhecimento e, até então, ainda não tinha colhido nenhum fruto, porque se conhecer e trabalhar em si mesma dá um trabalho absurdo, mas hoje, além de estar em paz em estar sozinha, eu tenho orgulho da pessoa que estou me tornando.

Não fico mais com alguém fixo no meu pensamento o dia inteiro, não me preocupo em agir de acordo como alguém gostaria que eu agisse, não me preocupo com minhas amizades, meu jeito, meu comportamento, não penso se nada disso vai desagradar alguém em específico, além de mim mesma.

Eu me tornei, além do grande amor da minha vida e meu maior projeto, que vou levar a vida construindo, como também a minha melhor amiga. Vou lutar por mim com unhas e dentes para nunca mais deixar alguém me tirar dessa paz que eu estou lutando para me colocar.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

O último dia

Acabei de voltar da faculdade, pela última vez, enquanto aluna, daqui cinco dias apresentarei meu TCC remotamente e, então, só retorno para buscar meu certificado de conclusão de curso. Ao sair de lá, passei pelo estacionamento devagar enquanto admirava o prédio e deixava o turbilhão de emoções invadir meu corpo, no caminho pra casa fui invadida com milhares de lembranças desses cinco anos e meio de percurso.

Durante esse semestre, brinquei com meus colegas de curso e amigos mais íntimos falando que não estava preparada para sair do posto de estudante de psicologia para tomar o de psicóloga e, é uma mudança drástica, mas que, de fato, foi acontecendo aos poucos, com o passar da graduação. O que eu não havia pensado, até agora, era sobre o caminho percorrido e hoje todas essas lembranças me fizeram sentir algo completamente inédito, único na minha vida, até então.

Descrevi ao meu amigo como: “Uma nostalgia, mas é uma mistura de alegria com tristeza e orgulho; muito feliz, mas muito aperto no coração.”. Dá pra perceber o quão difícil está sendo processar todos esses sentimentos. A alegria de chegar ao final de um curso difícil e de duração tão longa; a tristeza de parar de estudar aquilo que, por tantos anos, foi meu foco principal; orgulho por ter conseguido, não só entrar, mas permanecer até o fim; a felicidade em imaginar as possibilidades e próximos passos; o aperto no coração de não ter mais essa atividade na minha rotina.

Meu amigo me respondeu com uma percepção muito inteligente: “É quase como uma Síndrome de Estocolmo se você parar pra pensar, né? É um lugar que você vai pra sofrer tanto, pra ter que entregar tanta coisa, mas a hora que você não pertence mais àquele ambiente, você sente falta.”. É exatamente isso. Aquele lugar me roubou de mim e me transformou, a pessoa que entrou naquele prédio há quase seis anos definitivamente não existe mais; hoje, quem saiu dali foi completamente outra.

Além de todos esses pensamentos subjetivos, as lembranças das transformações físicas e do quanto minha vida mudou ao longo dessa caminhada me faz sorrir mais uma vez, ao olhar para trás e perceber que eu entrei ali, ainda uma menina, apesar dos 20 anos, mas que saio uma mulher. Namorei, noivei, morei junto, separei, me mudei de cidade, me mudei até de país. Fui pra faculdade de ônibus, com a minha primeira moto, de carro emprestado, com a segunda moto, com o meu carro. Estudei de manhã, de noite, de manhã, de noite... Incansáveis trocas de horário porque eu trabalhava em shopping e precisava adequar a faculdade ao emprego.

Quantos trabalhos e relatórios foram preparados no meu horário de almoço ou então no computador do trabalho, meio que por debaixo dos panos, enquanto eu fazia malabarismo entre trabalhar, estudar e ter, um mínimo possível, de vida social. Quantos livros eu comprei e ainda não li porque não estavam na bibliografia do curso. Anos abrindo mão de tanta coisa, muitas vezes de mim mesma. Finais doem, mas olhar para trás e lembrar dos motivos que me trouxeram até aqui, da força, persistência e constância que precisei ter para chegar onde cheguei, me dá a certeza, pela milésima vez, de que tomei o caminho certo.

sábado, 13 de março de 2021

Escrever

Escrevo textos. Apago. Reescrevo. Apago de novo. Sigo pensando no tema que quero escrever por dias. No primeiro dia, dentro da minha cabeça, o texto segue perfeito, original, intacto. Eu não faço o esboço. Perco o corpo do texto, a ideia central, ele vai se desfazendo pouco a pouco dentro da minha cabeça e morre em anonimato, prematuro, sem chance de salvação.

Eu adio a ideia de escrever. Por uma semana, por um mês, por seis meses, por quase um ano. A ânsia de escrever vem me invadir dia após dia. Eu leio instead. Assisto séries, vou estudar ou fazer qualquer outra coisa, mas o tema praticamente perdido e a necessidade compulsiva de escrever ficam ali, de canto de olho eu enxergo, mas não identifico o que é.

Abro o documento e penso: “Vou escrever, ponto. Independente do assunto, mesmo que eu não me reconheça ou coloque palavras em inglês no meio; essa sou eu, essa necessidade é minha e eu preciso supri-la.”. Certa vez li que “a prática leva à perfeição” e eu, perfeccionista ansiosa (in)curável que sou, debati com a voz da minha cabeça dizendo que essa frase está, de fato, correta.

Afinal, reli meus textos algumas vezes. Dezenas deles estão bons, uns cinco, talvez, tão bons que eu não reconheço naquela escrita minha própria capacidade de ter feito aquilo, mas também tem alguns que eu penso: “Nossa, eu reescreveria sobre esse tema para fazer jus a ele, a ideia é boa, mas o texto não ficou bem construído.”. Veja só, o próprio exemplo de que a pratica pode levar à perfeição, bem na minha frente.

Sinto vontade de fechar o documento. A voz da perfeição inatingível tomando forma em minha mente: “Escrever sobre escrever? Mais do mesmo. Não tá bom.” E ok, pode realmente não estar, olha a data do último texto postado aqui e me fala que se isso fosse um corpo em construção na academia ele não já teria perdido todos os músculos adquiridos.

Não vou fechar o documento, quero postar um texto novo desde que fazia três meses do último, agora faz dez. E dia após dia, semana após semana, aquele incômodo que eu consigo enxergar de canto de olho me faz sentir a vontade de voltar a escrever, pelo menos, uma vez por mês, para então poder criar metas mais ousadas. E esse aqui é meu primeiro passo.

Aquele texto que nasceu e morreu sem que ninguém pudesse ter lido, sem que eu mesma pudesse tê-lo escrito merece que eu me dedique a essa prática, afinal, como já sabemos, escrever compõe quem eu sou e o que eu poderia fazer nessa existência, se não me dedicar a me tornar eu mesma?

terça-feira, 19 de maio de 2020

Dos sonhos que carrego


Nessa madrugada aconteceu comigo algo que há muito tempo não acontecia – eu não conseguia dormir porque um texto me veio à cabeça e um misto de ansiedade para vê-lo pronto e o medo de perdê-lo enquanto adormecesse e acordasse amanhã e ele já não fosse o mesmo que é agora me fez abrir os olhos e começar a dá-lo forma.

Antes de começar a escrevê-lo, coloquei minha Playlist preferida para dormir "Piano calmo", no Deezer, e fiquei pensando em fazer minha própria versão compactada dela para poder baixar e ouvi-la off-line para economizar bateria; ainda focada na Playlist meu cérebro me lembrou que um dos meus sonhos é aprender a tocar piano.

Sim, essa Playlist me acalma, mas às vezes ela me recorda de todos os sonhos que eu ainda quero realizar e do quanto de idade eu já carrego em mim, mas eis que hoje eu percebi a cruel ironia dessa vida de menosprezar o que se tem e desejar tanto o que não se tem em vez de simplesmente admirá-lo.

Por exemplo, recentemente tentei pintar meu cabelo de rosa e foi um total fracasso, visto que coloro meus fios com preto azulado há anos; por mais que me dissessem que "ficou bom, é só ir clareando" eu não tenho paciência e o meu rosto não combina (na minha opinião) com tons claros. Passei o preto azulado e me senti linda. Entrei no Instagram e vi uma menina de cabelo rosa e achei lindo, então lembrei de uma frase "você não precisa ser bonita como ela, você pode ser bonita como você" e sorri, satisfeita e aliviada.

Assim são também todos os outros âmbitos da vida! Ok, eu quero tocar piano, aprender francês e viajar o mundo, não há problemas nisso, mas eu não posso tirar o valor do meu dom da escrita, do meu inglês avançado/fluente, dos meus meses nos EUA que deram errado.

Olha esse blog aqui, todo abandonado! Um dos maiores prazeres da minha vida foi tirado de mim, e o pior, por mim mesma! Como eu pude deixar que influências externas me fizessem apagar, desistir, desanimar, desfocar de algo que – modéstia à parte – eu era tão boa? Como eu quero aprender a tocar piano se mal toco as teclas ou a caneta para fazer o que eu mais gosto? Me aperfeiçoar no que já sei?

O que eu quero dizer nesse texto, talvez intimamente para mim mesma, é que aquele ditado de que "não dá pra ser bom em tudo" é real. Quantas vezes, quando mais nova, eu pensei que precisaria de mais vidas para realizar tudo o que sonho. Mas, percebi hoje, que nem de todos esses sonhos é meu papel ser protagonista, mas espectadora. Eu não preciso saber fazer o que eu amo, só porque eu amo se posso admirá-lo sem possuí-lo. Assim como eu não posso perder os dons que eu já tenho, não pretensiosamente esperando que alguém me admire, mas porque escrever além de ser o que eu amo, me faz ser quem eu sou.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A vida é um instante

Planejar o futuro é desprender uma energia a qual poderia ser muito melhor aproveitada em qualquer outro âmbito da vida; cresci ouvindo do meu pai a seguinte frase: "Se eu estiver vivo até lá." em resposta a qualquer planejamento que fosse maior de vinte e quatro horas.

No último ano eu vivi na pele o exemplo de um planejamento jogado no lixo; fiz as malas e me mudei com "meu futuro decidido por um ano", sem me dar conta de que não sou eu quem decide nada. O futuro não me pertence, imprevistos acontecem o tempo todo.
Antes eu tivesse embarcado nessa etapa da vida - que duraria um ano, a princípio - com o pensamento de viver cada dia como se fosse o último em vez de planejar o próximo mês, o próximo pagamento, a próxima viagem, pois nem sempre existe tempo para a próxima coisa.

Não desmereço que tracemos metas a médio e longo prazo, porém o foco precisa ser no ponta pé inicial, no que precisa ser feito hoje para atingir tal resultado, afinal a única coisa que nos é certa é o dia de hoje, é preciso aprendermos a aproveitá-lo e aproveitar todas as situações nele contidas - boas ou ruins.

Muitos de nós desperdiça o hoje com lembranças e remorsos, sonhos sem planejamentos, frequentemente reclamando da rotina e da vida que se leva, até que esse presente se torne passado e possamos então sentir falta disso tudo (tudo esse que enquanto era presente, não foi apreciado).

Hoje, um ano após aquele que seria "o ano da minha vida", penso com um sorriso que realmente esse foi o ano da minha vida. Não foi como eu sonhei ou planejei, mas foi muito melhor. Infinitamente mais difícil, mas me trouxe coisas e pessoas que, se eu tivesse planejado ou imaginado, não teria o feito com tanto zelo e perfeição.

Tendo vivido isso na pele, só posso dizer que levarei para a vida o ensinamento tão conhecido por nós de que a vida é um instante. Ela passa rápido diante os nossos olhos e é preciso estar atento com os sentidos no momento presente para saber reconhecer, apreciar e ser grato por cada pequeno presente que o próprio presente nos dá. Pois o futuro? Como diria o meu velho: o futuro à Deus pertence.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Literatura x Psicologia


Constantemente me percebo procurando um tema para a próxima crônica e hoje conversando com um amigo sobre meus anseios acerca do futuro profissional, encontrei o tema bem na minha frente quando disse a ele a seguinte frase: “Então eu encontrei na Psicologia meio que o protagonista do meu primeiro amor.”. Pega um café e lê com calma que juro de dedinho que no final essa frase vai te fazer sentido:

Você, leitor assíduo (e imaginário), já sabe que o meu primeiro amor é a Língua Portuguesa (ou inglesa, ou francesa, ou japonesa...). Todas as maneiras poéticas, e nem sempre tão poéticas, que usamos para nos expressar e nos comunicar. Lendo e me arriscando nos escritos desde criança, não me sobra um pelo sobre o corpo quando leio, assisto ou escuto alguma demonstração artística que me toca a alma. É um sentimento tão forte que eu quero ir correndo mostrar pra todo mundo aquele texto/poema/livro/música/filme que me tocou tão profundamente.

Você também sabe que por esses caminhos e descaminhos que a vida nos leva eu saí de Letras e caí de supetão em Psicologia, né? E que eu simplesmente encontrei o caminho da minha vida profissional nesse curso. Eu já te disse em algum texto mais pessoal o quanto a Psicologia agregou às minhas crônicas, afinal, todas elas se tratam da mesma matéria prima: você-ser-humano. Caso não tenha dito antes, agora está esclarecido.

Porém, tem algo que você ainda não sabe: eu tranquei a faculdade e me mudei para os Estados Unidos (por que diabos, você que se encontrou em Psicologia, fez esta merda? – você pode se perguntar, eu particularmente me pergunto, às vezes). E eis aqui onde todos os meus problemas e insônias e indagações acerca do que estudar começaram, visto que é de senso comum que ou se é bom em várias coisas ou muito bom em uma coisa só.

Veja bem, jamais duvide do meu amor à Psicologia, menos ainda do meu amor à Literatura. Eis o que me aflige. Eu amo duas coisas completamente ligadas, mas que seguem rumos completamente diferentes e eu me vejo hoje, com os pés nos 25 anos, parada no meio do caminho pensando o que persigo: o ovo ou a galinha? Porque oras, se não existisse o ser humano pra quê diabos existiria a palavra? E se não fosse a palavra com quê diabos a gente iria se comunicar nesse mundo?! (Esse é um daqueles momentos que eu quero gritar pro mundo: olha que coisa mais linda esses dois assuntos tão interligados assim!!!).

Se eu escolho dedicar a minha vida às Letras, no meu imaginário, eis o que eu ganho: regras; respostas; descobertas; teorias; no geral coisas que você (ser humano) vai colocar em prática como e onde quiser, com a interpretação que quiser – isso é, se você quiser. Já se eu escolho dedicar minha vida à Psicologia, no meu imaginário novamente, eis o que eu ganho: exceções; perguntas; explicações e descobertas de novos padrões; no geral coisas que você (ser humano) faz, querendo ou não fazer, entendendo ou não o porquê.

Analisando o meu ideal de atuação, meu amor pelo ser humano é (quase milimetricamente) maior que o meu amor à palavra; ainda não sei te dizer se irei perseguir o ovo ou a galinha, mas posso te garantir que eu seria uma poetisa frustrada em não ter sido também psicóloga; mas eu serei a psicóloga mais realizada profissionalmente se eu conseguir conciliar meus dois grandes amores. Agora, na pior das hipóteses, se eu tiver que escolher entre apenas um grande amor e me tornar apenas uma admiradora secreta do outro; apesar de ter crescido entre palavras, apesar de ter sido o meu primeiro grande amor, a literatura que me perdoe, mas eu estudo a poesia viva.

sábado, 15 de setembro de 2018

Bloqueio Criativo


"Bloqueio criativo é um fenômeno envolvendo a perda temporária da habilidade de continuar a gerar conteúdo, geralmente por falta de inspiração ou criatividade."

Escrevo há pouco mais de uma década e sofro desse mal antes mesmo de tomar consciência de que escrevia; hoje me deu saudades de falar sobre alguma coisa e, por que não sobre isso?

Lembro-me do meu primeiro bloqueio, eu ainda não tinha meu blog e salvava todas as minhas crônicas no meu computador, aqueles brancos de tubo, que a gente conectava na Internet discada e protegia o computador com capas plásticas, lembra? Um belo dia ele decidiu descansar em paz e eu perdi todos os meus textos. Passei seis meses em luto por isso, remoendo e repensando cada palavra e vírgula que eu havia perdido. Quando voltei a sentir a necessidade de escrever, criei o blog para que as chances de perder meus textos novamente fossem drasticamente reduzidas – não vamos dizer extintas, porque nunca se sabe quando uma plataforma resolve sair do ar.

Meu segundo grande bloqueio foi quando cheguei à conclusão (depois de muito ler e pensar em paranoias desnecessárias) de que tudo já havia sido escrito. Absolutamente tudo. Então, passei alguns meses pensando que eu tinha um dom/hobby/amor por algo “desnecessário”; todas as histórias que foram e continuam sendo contadas são e sempre serão as mesmas, por mais que eu me empenhasse em algum trabalho e modificasse sutil ou drasticamente o enredo, eu sentia que não estava fazendo nada de novo, e isso me desmotivava. Mas percebi que, apesar disso, a agitação interna de querer explicar, mais uma vez e sob outros pontos de vistas, era maior do que o desconforto em saber que alguém já havia estado ali antes. 

Então, pela terceira vez, fui bloqueada após três semestres cursando Psicologia, onde minha visão de mundo havia começado a se modificar e, inquestionavelmente, meu vocabulário também. Ao mesmo tempo em que eu gostava de ter um novo repertório e uma nova linha de raciocínio nos meus textos, eu já não me reconhecia neles ao finalizá-los; esse bloqueio perdurou um ano. Escrevi com uma frequência pequena, mas boa o suficiente para que eu aceitasse e aprendesse que aquele era o meu estilo de escrever, por assim dizer, a partir de então. E mais, aceitei que isso vai mudar constantemente com o passar dos anos e nada posso fazer a respeito. 

Pela quarta e última vez (por enquanto, pois é o bloqueio onde ainda me encontro) foi quando eu percebi que já não havia motivos para escrever suficientes que suprissem a minha vontade de fazê-lo. Eventualmente, como agora, sinto a necessidade de escrever à quem me lê como alguém que escreve à um amigo, sem um enredo elaborado, sem dizer sobre um coração partido ou transbordando de amor, apenas compartilhar uma informação; seja ela uma banalidade do meu dia ou uma angústia que me inquieta. Mas eu, que passei minha primeira década com o olhar distante de quem me lê, sem realmente trocar uma ideia, sem falar informalmente, sempre te fazendo sentir meus textos como se fosse uma sensação sua, e não minha, me vi completamente perdida.

Agora, por exemplo, fico me questionando se você está pensando algo como: "Que legal! Conhecer a parte mais humana e menos a poética.", ou se realmente já não está pensando nada, pois não consegui prender sua atenção até aqui (se for esse o caso, me desculpe, mas preciso fazê-lo primeiro por mim). Em todo caso, se esse bloqueio vai passar, como os anteriores, ou se me adaptarei a ele, como o último, só o tempo para nos dizer. Talvez eu aceite um meio termo e siga sendo não só alguém que descreva uma emoção sua, mas também alguém que compartilha as próprias emoções.

Por hora, posso dizer que com todos os meus bloqueios – porque sim, existiram outros que duraram um pouco menos e não tiveram um impacto para que eu me lembrasse com o passar dos anos – aprendi algumas coisas: 1) Eu nunca vou deixar de me encantar com a escrita, com o poder de tocar e ser tocada pelo outro, pela beleza que eu enxergo em cada vírgula, poema, página em branco, reticências... 2) E enquanto eu puder vou continuar fazendo, ainda que só para mim, pois é a minha maneira de lidar com o mundo. 3) E, caso eu esbarre em alguém que seja tão apaixonado – leia: louco – por um encantamento tão banalizado e esquecido que é a literatura (seja ela extraordinária ou humildemente a minha), por um segundo ou dois a sensação será a de que minha alma trocou de casa por alguns segundos, de que eu encontrei o motivo pelo qual eu comecei a escrever, ainda criança; de que eu reencontrei a Gabriella que passava horas, dias, enfiada em páginas e páginas e chorou todas as vezes que foi ao Museu da Língua Portuguesa... Isso, ouso te chamar de meu amigo, não tem preço. 

Mas, em todo caso, se algum dia eu desistir de escrever, voltarei ao meu segundo bloqueio em paz, afinal, tudo já foi escrito.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Pensamentos e um café

Sentada, tomando uma xícara de café e divagando, olhei para a parede e dei de cara com uma foto minha – uma das minhas preferidas: de perfil, com o riso fácil, olhando o horizonte, com os cabelos ao vento. E era como se eu ouvisse aquela versão de mim, dizendo a mim mesma: “Sorri menina, esse sorriso é tão elogiado e não é à toa, olha esse mundo de oportunidades e possibilidades à sua volta, corre para conquistar os sonhos que ainda não conquistou e sonhe o mais alto que puder.” Dei um soco na mesa. Desculpe, não consigo controlar meus sentimentos muito bem. Ainda. Porém, consegui segurar as lágrimas dentro dos olhos e corri para o computador para escrever antes que eu me esquecesse.

Com o pensamento acelerado, não consigo distinguir muito bem o que eu espero de mim mesma, nesse momento dizem que só posso aproveitar o luto. Percebi que ele é o meu próprio luto, me doei, modifiquei e apaguei tanto de mim mesma que agora o vazio me desespera. Tenho uma pasta no computador cheia de textos pela metade; na estante, cinco livros me esperam para contar como terminam suas histórias; minhas matérias da faculdade estão entre 70% e 98%, não concluo nenhuma. E hoje me desafiei a terminar algo: esse texto – ou lembrete, carta, aviso – a mim mesma. Não sei se esse problema que passei a ter com conclusões tem a ver com o fato de que não consigo mais me concentrar sozinha, ou se é justamente o contrário, me tornei dependente de sempre ter algo que dependa de mim.

Mas, me esqueci do mais importante, eu já tenho algo que depende 100% de mim: eu mesma. Aquela menina sorridente da foto me olha com ternura, como se estivesse orgulhosa por tudo que já conquistei de lá para cá, e dizendo para eu ter calma e prestar atenção em cada flor e pedra no meu caminho, pois quando eu olhar para trás irei me orgulhar das pequenas alegrias dos meus dias e dos grandes ensinamentos que tirei dos momentos difíceis. Ela me diz também: “Não abra mão de tudo o que compõe o que você é por ninguém, pois os caminhos se cruzam e descruzam ao longo da vida, mas só você mesma estará lá do começo ao fim.” Acho que devo começar a ouvi-la, afinal.

Ontem eu ri na cara do perigo. Olhei dentro dos olhos de um – atualmente – amigo. O mesmo amigo que há alguns anos foi embora da minha vida e me levou junto, não havia sobrado nada de mim para contar a história. Hoje, cinco anos mais madura (e calejada) eu o olhei dos pés a cabeça e me orgulhei da mulher que me tornei desde que ele foi embora e me levou consigo, do quanto eu consegui me reinventar e me superar. Penso que se eu consegui me achar em um momento onde achei que não havia sobrado nem eu mesma; consigo agora, mesmo com meu peito doendo como se tivessem arrancado meu coração com as mãos, igual a bruxa da Branca de Neve faz.

No final das contas, percebo que somos eternos aprendizes, nosso eu do passado nos olha com orgulho do que somos e nosso eu do futuro nos olha com ternura e paciência. Se pudéssemos pular os maus bocados da vida, quase nada sobraria. Essa mesma menina de riso fácil me espera lá na frente, rindo do quanto eu chorei por isso tudo; mas ela nada pode fazer, além de me observar passar por tudo isso. Bom, hoje eu salvo esse documento, desligo meu computador e volto ao meu café. Quem sabe aquela menina da foto não me conte mais algumas coisas. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sonho x medo

Você já teve uma paixão platônica? Alguém que você idealiza um relacionamento perfeito de conto de fadas, mesmo não a conhecendo a ponto de saber se seria realmente tudo aquilo. Onde a graça é justamente essa, ser apenas fruto da sua imaginação e pronto, qualquer pitada de realidade estragaria tudo.

Sou assim com meus maiores sonhos. Hoje tenho maturidade (e, talvez, conhecimento) para entender que saboto meus planos antes mesmo de colocá-los em prática. "Por que?!" Você me pergunta. Por medo do potencial fracasso, concluo agora. Mesmo sabendo que se eu não fizer nada eles não se tornarão realidade, sei que começar alguma coisa pode fazer com que eles deixem de ser sonhos.

Com isso, abro novos caminhos. Comecei um curso diferente, o qual nunca sonhei, e chego aqui no motivo desse texto: oportunidade. Estou a caminho do quarto semestre, vejo que por fim estou criando raízes na faculdade, olho o longo caminho pela frente com ansiedade e alegria, imaginando a psicóloga que serei. Isso tudo porque, me atrevo a dizer: eu não tive, nem tenho, medo.

Lidar com o maior sonho da minha vida, equivale a lidar com o risco do maior fracasso da minha vida também. Nunca sonhei ser psicóloga, então dou o melhor de mim para essa formação, sem nenhuma expectativa em cima disso, e me torno a cada dia a melhor psicóloga que poderia ser. Agora, escritora, quanto mais eu sonho com meu livro, mais pressão coloco em mim mesma, sobre cada vírgula nova que escrevo.

E isso tudo me faz deixar, ano após ano, o sonho da faculdade de Letras e o de colocar no papel meu primeiro - e tão idealizado - livro em standby. Mesmo sabendo o quão errado isso é e que, acima de talento ou dom, escrever é minha alegria; continuo mantendo em cativeiro o protagonista do meu primeiro romance. Você nem imaginaria, mas ele tem medo de que eu desista antes de poder contar a você a história dele.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Engrenagem


Acordei às dez horas e fui ao mercado. Voltei, comecei a arrumar a casa e a colocar em dia algumas coisas pessoais. Sentei-me para tomar um café e então percebi que já eram sete da noite, e que era a quarta vez que parava para comer. Assustei-me ao notar como nosso tempo voa enquanto nos mantemos ocupados com coisas que gostamos.

Pensei no varal cheio de roupas que havia acabado de estender, e me lembrei que antes disso eu havia precisado recolher as que já estavam secas. Rindo, me perguntei quando é que aquele varal estaria sem roupa alguma, até que conclui que a resposta seria nunca.

Comparei uma casa a uma engrenagem. São infinitas coisinhas que precisam ser refeitas dia após dia, mas em uma ordem onde nada vai acabar junto. O ciclo: cozinhar, lavar, passar, limpar, guardar (...) não é sequencial. Enquanto a louça está limpa, o quarto já está por varrer; quando a roupa está no varal, já é necessário limpar o fogão.

Você deve estar se perguntando porque, em pleno sábado, estou falando sobre cuidar da casa. Permita-me explicar: cresci entre dois extremos. Filha de uma amizade colorida, sempre tive duas casas, uma com um pai extremamente metódico, para não dizer perfeccionista; e outra com uma mãe extremamente esquecida, que não se incomodava tanto com bagunça.

Com isso, nunca percebi a mágica na funcionalidade de uma casa. Em alguns dias da semana eu precisava decorar o ângulo certo de cada coisa em cima da mesa, antes de retirá-la, para poder voltá-la ao mesmo lugar. Em outros, eu largava o tênis na sala e uma meia em cada cômodo. Eu ajudava a cuidar de ambas as casas, porém com ciclos e rotinas completamente diferentes.

Hoje já não moro com meus pais nem sou mais criança. Admito o quão difícil é manter a casa “um brinco”, como diriam nossas avós. A frase: “Uma casa limpa é uma casa sem vida” nunca fez tanto sentido para mim como agora. É um conjunto de manias habitando o mesmo espaço – caso você more sozinho, considere seus níveis de humor – com costumes e tempos diferentes, fazendo a engrenagem rodar.

Não pense que quis dizer que gosto de bagunça, muito pelo contrário. Disse que, por gostar tanto de estar em um ambiente agradável, vi mágica até no organizar. Porque esse ciclo, que exemplifiquei acima, nada mais é que a vida no dia a dia dessa casa, as peças funcionando juntas. A louça do jantar foi limpa e o quarto varrido, enquanto eu acabava de repousar minha xícara de café na pia.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Realização profissional x pessoal

Ultimamente participei ativa e também  indiretamente sobre conversas com os temas: "O que você quer para o seu futuro?"; "Trabalhe com aquilo que ama e não terá de trabalhar." E, ainda: "Corra atrás dos seus objetivos a longo prazo." E todos esses assuntos me fizeram pensar, em círculos.

No meio dessas conversas eu ouvi de alguém: "Meu objetivo é ser feliz." Fiquei com inveja de um objetivo desse em pleno século XXI e não me contive em prestar atenção na conversa. Quando questionado sobre carreira e bens materiais esse mesmo alguém respondeu: "Você não é sua carreira nem o que você tem; você é feliz?" Eu, ouvinte, a moça, ativa na conversa, entramos em conflito existencial, tenho certeza.

Houve um tempo em que eu tinha um salário razoavelmente bom para minha idade, muitos compromissos e estresses  desnecessários para a minha vida pessoal  e muita, muita coisa nova no meu guarda roupa ao final de cada mês. Confesso que chorei por conta do trabalho e não consegui dormir; desejei um final de semana só para mim, com nada para fazer.

Três anos depois eu consegui o que queria  graças à crise  e sinto falta daquele salário razoavelmente bom e roupas que nunca serão usadas. Confesso que dormi, descansei, saí, matei saudades porque eu tive tempo livre, voltei até a ser bastante criativa e nunca mais chorei por estresse - de terceiros.

Me vem à mente, ainda, aquele famoso ditado: "Quem tem tempo e disposição, não tem dinheiro; quem tem dinheiro e disposição, não tem tempo; quem tem tempo e dinheiro, não tem disposição." E parece que, de fato, nunca estamos completamente satisfeitos, é necessário abrir mão de algumas coisas para buscar outras maiores.

Mas, o que são essas coisas maiores? Paro para pensar em realização pessoal e vejo como tantas pessoas a confundem com realização profissional, status, dinheiro. Ter trás uma falsa sensação de alegria que muita gente se esquece que ser é o mais importante, passando, assim, grande ou toda parte de sua vida correndo atrás de preencher a conta bancária, em vez da alma.

Com esse tempo de folga percebi o que andei fazendo errado, podendo assim recomeçar da maneira certa. Seguir o objetivo daquele alguém que eu ouvi certo dia: "Ser feliz." Sem precisar me importar com o que falam e impõem por aí, afinal, o principal objetivo de vida é a felicidade. E eu? Bom, vou correr atrás da minha.

domingo, 28 de maio de 2017

Emma


Quando pequena, nunca tive oportunidade de ter um animal de estimação, além dos peixes Beta que minha mãe me dava. Admirava a dedicação, amor e carinho com que meus amigos e familiares cuidavam de seus cachorros e gatos, sonhando com o dia que eu tivesse o meu, imaginando qual nome daria e como ele seria, fantasiando como seria minha ligação e paciência com ele. 

Nada do que eu imaginei chegou perto do que realmente foi. Eu não escolhi, mas fui escolhida. Minha casa vivia com um gato ou outro a me visitar; até que a Emma chegou e ficou. Nos primeiros dias ela foi chamada de Robin, pois não sabíamos se, de fato, ela era fêmea. Com o tempo, ela foi ganhando espaço em casa, inclusive em cima da cabeça da minha mãe, até finalmente roubar nossos corações. 

Quando ela já estava dominando todo o território que quisesse, Emma começou a ter um sangramento e precisei deixá-la dormir do lado de fora, estávamos tão acostumadas a dividir a cama que não sei qual coração se partiu mais, o meu por não poder mexer nela durante a noite ou o dela por não poder deitar em cima das minhas costas. 

Levei-a ao veterinário, marquei ultrassom; passeamos de ônibus e de Uber, a vi assustada em um ambiente com pessoas que nunca vimos, mas me mantive firme, para acalmar a ela e a mim. Quando ela foi operada, fiquei do lado de fora como uma mãe ansiosa e aflita, a cirurgia acabou rápido, mas a anestesia duraria ainda algumas horas. 

Lembro do veterinário me explicando tudo e o quão difícil seria para minha mãe e eu darmos remédio a ela; passei no petshop para comprar a roupa cirúrgica e os remédios e fomos para casa. Cheguei e a vesti antes que acordasse, mas ela estava tão imóvel que eu, mãe de primeira viagem, chorei copiosamente em desespero, com medo de que ela não acordasse mais.

As primeiras horas após a cirurgia, onde eu dediquei meu dia totalmente a ela, pois ela mal parava em pé, os primeiros dias em que minha mãe e eu facilmente dávamos remédio, toda minha paciência, preocupação e dedicação com um ser que não podia me falar nada, mas deitava no meu colo com aquele ronronar em agradecimento que aquecia meu coração. 

Os dias finais do remédio, onde ela estava forte o suficiente para dificultar o nosso trabalho, quando ela voltou a comer normalmente, miar quando via minha mãe perto do pote de ração, ou suas travessuras em cima do guarda roupa e das taças da cozinha.

Quando chorei e ela ficou ao meu lado, me olhando e colocou minha mão entre suas patas, o que me fez chorar mais ainda. Quando eu deitava na rede para ler, ela dava um jeito de subir e ficar ali, até que ficasse desconfortável e ela descesse e deitasse no chão, ao meu lado. Ou quando eu fazia abdominais e ela se deitava em cima de mim, claro.

Tantos pequenos e infinitos detalhes que vistos de fora não têm importância, mas que você, dona/mãe, mata e morre pelo seu filho de estimação. Você se acostuma, se dói, se preocupa e se desespera por essa pequena vida que lhe foi confiada; nada é tão gratificante quanto tê-lo ali, contigo. 

Só que todo esse ciclo tem um fim e eu também não imaginava como seria a despedida, já vi amigos perdendo seus animais de estimação e achei que eu não sofreria tanto, doce engano... Nenhum tipo de perda é aceitável ou dói menos, não ter seu melhor amigo ali contigo todo dia é desesperador, no início. 

A Emma costumava sair enquanto eu não estava e voltava próximo ao meu horário de chegar, com isso, me acostumei a checar a garagem e o quintal, sempre que chego em casa. Procurei-a quando cheguei, nada. Um dia, dois. Uma semana. Disseram-me que era normal, gatos somem mesmo, mas eu sabia que ela não era disso e me desesperei em constatar que ela não voltaria mais; mesmo assim não deixei de checar minha casa, por costume. Hoje não olho mais, mas quando escuto gatos no telhado prendo a respiração para ver se reconheço o miado dela, é em vão, eu sei, mas é também involuntário. 

Ela se foi, e o pior é não saber para onde, se está bem ou viva, sendo cuidada ou não. De qualquer forma, o amor que senti e aprendi com ela está aqui e ficará guardado para sempre no meu coração. Esse texto foi para guarda-la, o mais detalhadamente possível, na minha memória.