quarta-feira, 10 de maio de 2023

Silêncio

Hoje eu decidi me calar, ou melhor, a minha voz me calou por mim – engraçado que, em dois dias, farei 29 anos e eu estou em um momento de introspecção, sem vontade de comemorar esse ano; foi quase como se meu corpo tivesse entendido o recado e falado: “Pode deixar, vou te deixar uns diazinhos sem voz e de cama.”. Sou grata por isso, então.

Geralmente em épocas de aniversários eu fico nostálgica, acho que todos ficamos, não? Mas esse ano parece que a coisa tá pegando firme aqui dentro. Porque foi um processo tão visível (para mim mesma, pelo menos) de transformação, dentro desses poucos anos que se deram dos 20 para cá, que hoje eu não reconheço aquela menina que eu fui.

Só que eu também sinto saudades dela – não por inteira, mas de alguns aspectos dela. Da doçura, misturada com loucura e inconsequência. Ela sentia tudo à flor da pele, eu não. Ela chorava, sentia raivas desmedidas e tristezas insuportáveis, eu não. Entretanto, ela não era tão feliz; hoje eu tenho crises de ansiedade de tanta alegria – chega a ser triste que minha alegria me desencadeie essa resposta, mas é a mais pura verdade, no fim das contas eu dou risada e abraço essa alegria.

Eu sinto falta das palavras dela na minha cabeça, da facilidade que ela tinha em fazer um texto incrível do absoluto nada, ela acordava no meio da noite com ideias de textos e os fazia em um piscar de olhos! Agora, além de eu demorar meses para conseguir ter a ideia de algum texto, quando os releio ao final da produção, sinto que estão todos meia boca – fazer o quê? Vai ver perdi o jeito da coisa, quando aquela loucura foi embora deve ter levado as inspirações junto.

Mas não me sinto mais tão triste em não escrever tanto. Em algum momento, há muitos anos, aquela menina me falou o seguinte: “Você não precisa escrever tudo, pois tudo já está escrito.”. E eu fiquei em paz com isso. Não é meu papel fazer descobertas revolucionárias ou escrever os textos mais incríveis a serem lidos, eu posso me aposentar ou então continuar de forma medíocre, fica a meu critério.

Como as escritas sempre foram mais para mim do que para você – que me acompanhou aqui por tantos anos e hoje já nem lembra que eu escrevia – eu sigo escrevendo, de tempos em tempos, com a qualidade cada vez mais duvidosa, agradecendo aquela menina de 20 anos por ter me trazido até aqui de uma forma tão intensa e pura – para ela, todo o meu amor.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Rato na roda

Querendo voltar para uma jornada fitness, enquanto estava na academia, pensei que tudo na nossa vida é um ciclo de repetições, quase como se fôssemos o rato na roda: acordar, comer, trabalhar, se movimentar, cuidar de si, dormir, e repetir, dia após dia.

Quase como se estivéssemos ensaiando para uma apresentação de ballet, onde ficamos repetindo os movimentos metodicamente, para atingir a perfeição. Ensaios, dia após dia, para uma execução de maestria.

Lembrei que fazia muito tempo que não escrevia, me perguntei: será que ainda levo jeito pra isso? E conclui que, possivelmente, não. Esse músculo está enferrujado. Enquanto, anos atrás, tudo me trazia motivos para escrever, hoje tenho dificuldade em organizar um pensamento.

Então, quer dizer que para que sejamos bons em qualquer coisa que seja, precisamos nos permitir estar naquela roda: repete e repete. Quando nos damos por vencidos por alguma coisa e deixamos aquilo de lado, possivelmente essa engrenagem ficará enferrujada e cairá em desuso.

Mas, qual o sentido, então, de fazer tudo para depois fazer de novo e de novo? Bom, essa resposta eu não posso te trazer com certeza. Mas arrisco em dizer que provavelmente é para que possamos melhorar e evoluir sempre.

A vida se dá pelo movimento, a evolução ser dá pela execução. E quanto mais fazemos alguma coisa, dia após dia, semana a pós semana, mês após mês, ano após ano, mais estaremos adaptados para executar aquela tarefa com maestria, com naturalidade e familiaridade.

No mais, dentro desse ciclo de repetições, podemos nos permitir admirar toda e qualquer mudança, singela, mas significativa, pois são essas pequenas nuances que nos mostram que, de fato, não faz parte de um repetir, mas sim de um viver o novo constantemente. Mesmas ações, mas nem sempre o mesmo resultado, muito pelo contrário: a cada dia a vida se mostra a nós como um presente a ser desembrulhado e admirado, nos seus menores detalhes.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Behavorista desde criança

Costumo brincar, dizendo que sou Behavorista desde criança, mas percebo o quanto de verdade existe nisso. Lembro que, desde muito nova, sempre gostei de reparar nas pessoas ao meu redor, no comportamento delas, na interação entre elas. Sou uma pessoa extremamente extrovertida, porém, às vezes gosto de ficar de canto, observando.

Quando adolescente, reparava nas pessoas na rua, morria de medo de acabar sendo mal interpretada e que alguém viesse discutir comigo, ou que gritassem: “Tá olhando o que?”. Já imaginava minha possível resposta: “Estou olhando, porque te achei bonito(a).”, só pra ver a pessoa ficar sem graça e, também, poder alegrar o dia de alguém, mas isso nunca aconteceu (ainda bem).

Mais velha, saindo para bares e baladas com meus amigos, sempre me percebia olhando meus amigos, admirada, enquanto eles interagiam entre si; olhando para as pessoas dançando, flertando, conversando. A sensação de ser expectadora e de ficar me perguntando porque cada um age e reage de tal forma diante de cada situação, sempre foi meu passatempo favorito.

Muito se sabe que somos seres sociais, que precisamos de pessoas para viver bem, que passamos grande parte dos nossos dias pensando sobre outros seres humanos. Além de pensar sobre pessoas, sempre pensei no comportamento delas; sempre tive curiosidade de perguntar o que se passa na cabeça de pessoas que vejo na rua, algumas alegres, outras mal humoradas.

Meu grande amor é também meu objeto de estudo, agora. Sou fascinada pelo ser humano e mais ainda pelas suas maneiras de se comportar, por isso afirmo: eu já era Behavorista antes de ser; já era analista do comportamento desde antes mesmo sonhar que a Psicologia existia e que ela me encontraria. Meu amor pelo Behavorismo chegou logo no primeiro semestre, me encontrei com a pessoa que eu estava predestinada a vir a ser.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Felicidade solo

Eu passei o final de semana mais incrível da minha vida, esse texto será apenas um lembrete para o meu eu do futuro: você merece ser feliz! Você merece estar rodeada de pessoas que te amam e te querem bem! Deixe qualquer um que fuja disso ir embora; dói, no começo, mas depois é libertador.

Sexta-feira viajei com uns amigos até Praia Grande, ficamos até hoje, domingo. Quase não fui, pois segunda apresento meu TCC, mas me dei ao luxo de aproveitar também outras coisas da vida, além de que, o mar é o meu melhor lugar do mundo.

Sábado a tarde, recebi a mensagem mais linda e importante dos últimos seis anos: uma proposta de emprego como Psicóloga! Com direito a um documento que comprova que a única coisa que falta para eu começar a trabalhar é meu CRP, para que a faculdade e o Conselho adiantem o processo.

Hoje, quase não peguei no celular para conversar com ninguém. Não devo satisfação para ninguém e ninguém me deve nada. Por toda minha vida eu acreditei que isso era solidão, hoje eu percebi a beleza da solitude.

Estou solteira há sete meses, há uns seis passo pelo processo de autoconhecimento e, até então, ainda não tinha colhido nenhum fruto, porque se conhecer e trabalhar em si mesma dá um trabalho absurdo, mas hoje, além de estar em paz em estar sozinha, eu tenho orgulho da pessoa que estou me tornando.

Não fico mais com alguém fixo no meu pensamento o dia inteiro, não me preocupo em agir de acordo como alguém gostaria que eu agisse, não me preocupo com minhas amizades, meu jeito, meu comportamento, não penso se nada disso vai desagradar alguém em específico, além de mim mesma.

Eu me tornei, além do grande amor da minha vida e meu maior projeto, que vou levar a vida construindo, como também a minha melhor amiga. Vou lutar por mim com unhas e dentes para nunca mais deixar alguém me tirar dessa paz que eu estou lutando para me colocar.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

O último dia

Acabei de voltar da faculdade, pela última vez, enquanto aluna, daqui cinco dias apresentarei meu TCC remotamente e, então, só retorno para buscar meu certificado de conclusão de curso. Ao sair de lá, passei pelo estacionamento devagar enquanto admirava o prédio e deixava o turbilhão de emoções invadir meu corpo, no caminho pra casa fui invadida com milhares de lembranças desses cinco anos e meio de percurso.

Durante esse semestre, brinquei com meus colegas de curso e amigos mais íntimos falando que não estava preparada para sair do posto de estudante de psicologia para tomar o de psicóloga e, é uma mudança drástica, mas que, de fato, foi acontecendo aos poucos, com o passar da graduação. O que eu não havia pensado, até agora, era sobre o caminho percorrido e hoje todas essas lembranças me fizeram sentir algo completamente inédito, único na minha vida, até então.

Descrevi ao meu amigo como: “Uma nostalgia, mas é uma mistura de alegria com tristeza e orgulho; muito feliz, mas muito aperto no coração.”. Dá pra perceber o quão difícil está sendo processar todos esses sentimentos. A alegria de chegar ao final de um curso difícil e de duração tão longa; a tristeza de parar de estudar aquilo que, por tantos anos, foi meu foco principal; orgulho por ter conseguido, não só entrar, mas permanecer até o fim; a felicidade em imaginar as possibilidades e próximos passos; o aperto no coração de não ter mais essa atividade na minha rotina.

Meu amigo me respondeu com uma percepção muito inteligente: “É quase como uma Síndrome de Estocolmo se você parar pra pensar, né? É um lugar que você vai pra sofrer tanto, pra ter que entregar tanta coisa, mas a hora que você não pertence mais àquele ambiente, você sente falta.”. É exatamente isso. Aquele lugar me roubou de mim e me transformou, a pessoa que entrou naquele prédio há quase seis anos definitivamente não existe mais; hoje, quem saiu dali foi completamente outra.

Além de todos esses pensamentos subjetivos, as lembranças das transformações físicas e do quanto minha vida mudou ao longo dessa caminhada me faz sorrir mais uma vez, ao olhar para trás e perceber que eu entrei ali, ainda uma menina, apesar dos 20 anos, mas que saio uma mulher. Namorei, noivei, morei junto, separei, me mudei de cidade, me mudei até de país. Fui pra faculdade de ônibus, com a minha primeira moto, de carro emprestado, com a segunda moto, com o meu carro. Estudei de manhã, de noite, de manhã, de noite... Incansáveis trocas de horário porque eu trabalhava em shopping e precisava adequar a faculdade ao emprego.

Quantos trabalhos e relatórios foram preparados no meu horário de almoço ou então no computador do trabalho, meio que por debaixo dos panos, enquanto eu fazia malabarismo entre trabalhar, estudar e ter, um mínimo possível, de vida social. Quantos livros eu comprei e ainda não li porque não estavam na bibliografia do curso. Anos abrindo mão de tanta coisa, muitas vezes de mim mesma. Finais doem, mas olhar para trás e lembrar dos motivos que me trouxeram até aqui, da força, persistência e constância que precisei ter para chegar onde cheguei, me dá a certeza, pela milésima vez, de que tomei o caminho certo.

sábado, 13 de março de 2021

Escrever

Escrevo textos. Apago. Reescrevo. Apago de novo. Sigo pensando no tema que quero escrever por dias. No primeiro dia, dentro da minha cabeça, o texto segue perfeito, original, intacto. Eu não faço o esboço. Perco o corpo do texto, a ideia central, ele vai se desfazendo pouco a pouco dentro da minha cabeça e morre em anonimato, prematuro, sem chance de salvação.

Eu adio a ideia de escrever. Por uma semana, por um mês, por seis meses, por quase um ano. A ânsia de escrever vem me invadir dia após dia. Eu leio instead. Assisto séries, vou estudar ou fazer qualquer outra coisa, mas o tema praticamente perdido e a necessidade compulsiva de escrever ficam ali, de canto de olho eu enxergo, mas não identifico o que é.

Abro o documento e penso: “Vou escrever, ponto. Independente do assunto, mesmo que eu não me reconheça ou coloque palavras em inglês no meio; essa sou eu, essa necessidade é minha e eu preciso supri-la.”. Certa vez li que “a prática leva à perfeição” e eu, perfeccionista ansiosa (in)curável que sou, debati com a voz da minha cabeça dizendo que essa frase está, de fato, correta.

Afinal, reli meus textos algumas vezes. Dezenas deles estão bons, uns cinco, talvez, tão bons que eu não reconheço naquela escrita minha própria capacidade de ter feito aquilo, mas também tem alguns que eu penso: “Nossa, eu reescreveria sobre esse tema para fazer jus a ele, a ideia é boa, mas o texto não ficou bem construído.”. Veja só, o próprio exemplo de que a pratica pode levar à perfeição, bem na minha frente.

Sinto vontade de fechar o documento. A voz da perfeição inatingível tomando forma em minha mente: “Escrever sobre escrever? Mais do mesmo. Não tá bom.” E ok, pode realmente não estar, olha a data do último texto postado aqui e me fala que se isso fosse um corpo em construção na academia ele não já teria perdido todos os músculos adquiridos.

Não vou fechar o documento, quero postar um texto novo desde que fazia três meses do último, agora faz dez. E dia após dia, semana após semana, aquele incômodo que eu consigo enxergar de canto de olho me faz sentir a vontade de voltar a escrever, pelo menos, uma vez por mês, para então poder criar metas mais ousadas. E esse aqui é meu primeiro passo.

Aquele texto que nasceu e morreu sem que ninguém pudesse ter lido, sem que eu mesma pudesse tê-lo escrito merece que eu me dedique a essa prática, afinal, como já sabemos, escrever compõe quem eu sou e o que eu poderia fazer nessa existência, se não me dedicar a me tornar eu mesma?

terça-feira, 19 de maio de 2020

Dos sonhos que carrego


Nessa madrugada aconteceu comigo algo que há muito tempo não acontecia – eu não conseguia dormir porque um texto me veio à cabeça e um misto de ansiedade para vê-lo pronto e o medo de perdê-lo enquanto adormecesse e acordasse amanhã e ele já não fosse o mesmo que é agora me fez abrir os olhos e começar a dá-lo forma.

Antes de começar a escrevê-lo, coloquei minha Playlist preferida para dormir "Piano calmo", no Deezer, e fiquei pensando em fazer minha própria versão compactada dela para poder baixar e ouvi-la off-line para economizar bateria; ainda focada na Playlist meu cérebro me lembrou que um dos meus sonhos é aprender a tocar piano.

Sim, essa Playlist me acalma, mas às vezes ela me recorda de todos os sonhos que eu ainda quero realizar e do quanto de idade eu já carrego em mim, mas eis que hoje eu percebi a cruel ironia dessa vida de menosprezar o que se tem e desejar tanto o que não se tem em vez de simplesmente admirá-lo.

Por exemplo, recentemente tentei pintar meu cabelo de rosa e foi um total fracasso, visto que coloro meus fios com preto azulado há anos; por mais que me dissessem que "ficou bom, é só ir clareando" eu não tenho paciência e o meu rosto não combina (na minha opinião) com tons claros. Passei o preto azulado e me senti linda. Entrei no Instagram e vi uma menina de cabelo rosa e achei lindo, então lembrei de uma frase "você não precisa ser bonita como ela, você pode ser bonita como você" e sorri, satisfeita e aliviada.

Assim são também todos os outros âmbitos da vida! Ok, eu quero tocar piano, aprender francês e viajar o mundo, não há problemas nisso, mas eu não posso tirar o valor do meu dom da escrita, do meu inglês avançado/fluente, dos meus meses nos EUA que deram errado.

Olha esse blog aqui, todo abandonado! Um dos maiores prazeres da minha vida foi tirado de mim, e o pior, por mim mesma! Como eu pude deixar que influências externas me fizessem apagar, desistir, desanimar, desfocar de algo que – modéstia à parte – eu era tão boa? Como eu quero aprender a tocar piano se mal toco as teclas ou a caneta para fazer o que eu mais gosto? Me aperfeiçoar no que já sei?

O que eu quero dizer nesse texto, talvez intimamente para mim mesma, é que aquele ditado de que "não dá pra ser bom em tudo" é real. Quantas vezes, quando mais nova, eu pensei que precisaria de mais vidas para realizar tudo o que sonho. Mas, percebi hoje, que nem de todos esses sonhos é meu papel ser protagonista, mas espectadora. Eu não preciso saber fazer o que eu amo, só porque eu amo se posso admirá-lo sem possuí-lo. Assim como eu não posso perder os dons que eu já tenho, não pretensiosamente esperando que alguém me admire, mas porque escrever além de ser o que eu amo, me faz ser quem eu sou.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A vida é um instante

Planejar o futuro é desprender uma energia a qual poderia ser muito melhor aproveitada em qualquer outro âmbito da vida; cresci ouvindo do meu pai a seguinte frase: "Se eu estiver vivo até lá." em resposta a qualquer planejamento que fosse maior de vinte e quatro horas.

No último ano eu vivi na pele o exemplo de um planejamento jogado no lixo; fiz as malas e me mudei com "meu futuro decidido por um ano", sem me dar conta de que não sou eu quem decide nada. O futuro não me pertence, imprevistos acontecem o tempo todo.
Antes eu tivesse embarcado nessa etapa da vida - que duraria um ano, a princípio - com o pensamento de viver cada dia como se fosse o último em vez de planejar o próximo mês, o próximo pagamento, a próxima viagem, pois nem sempre existe tempo para a próxima coisa.

Não desmereço que tracemos metas a médio e longo prazo, porém o foco precisa ser no ponta pé inicial, no que precisa ser feito hoje para atingir tal resultado, afinal a única coisa que nos é certa é o dia de hoje, é preciso aprendermos a aproveitá-lo e aproveitar todas as situações nele contidas - boas ou ruins.

Muitos de nós desperdiça o hoje com lembranças e remorsos, sonhos sem planejamentos, frequentemente reclamando da rotina e da vida que se leva, até que esse presente se torne passado e possamos então sentir falta disso tudo (tudo esse que enquanto era presente, não foi apreciado).

Hoje, um ano após aquele que seria "o ano da minha vida", penso com um sorriso que realmente esse foi o ano da minha vida. Não foi como eu sonhei ou planejei, mas foi muito melhor. Infinitamente mais difícil, mas me trouxe coisas e pessoas que, se eu tivesse planejado ou imaginado, não teria o feito com tanto zelo e perfeição.

Tendo vivido isso na pele, só posso dizer que levarei para a vida o ensinamento tão conhecido por nós de que a vida é um instante. Ela passa rápido diante os nossos olhos e é preciso estar atento com os sentidos no momento presente para saber reconhecer, apreciar e ser grato por cada pequeno presente que o próprio presente nos dá. Pois o futuro? Como diria o meu velho: o futuro à Deus pertence.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Literatura x Psicologia


Constantemente me percebo procurando um tema para a próxima crônica e hoje conversando com um amigo sobre meus anseios acerca do futuro profissional, encontrei o tema bem na minha frente quando disse a ele a seguinte frase: “Então eu encontrei na Psicologia meio que o protagonista do meu primeiro amor.”. Pega um café e lê com calma que juro de dedinho que no final essa frase vai te fazer sentido:

Você, leitor assíduo (e imaginário), já sabe que o meu primeiro amor é a Língua Portuguesa (ou inglesa, ou francesa, ou japonesa...). Todas as maneiras poéticas, e nem sempre tão poéticas, que usamos para nos expressar e nos comunicar. Lendo e me arriscando nos escritos desde criança, não me sobra um pelo sobre o corpo quando leio, assisto ou escuto alguma demonstração artística que me toca a alma. É um sentimento tão forte que eu quero ir correndo mostrar pra todo mundo aquele texto/poema/livro/música/filme que me tocou tão profundamente.

Você também sabe que por esses caminhos e descaminhos que a vida nos leva eu saí de Letras e caí de supetão em Psicologia, né? E que eu simplesmente encontrei o caminho da minha vida profissional nesse curso. Eu já te disse em algum texto mais pessoal o quanto a Psicologia agregou às minhas crônicas, afinal, todas elas se tratam da mesma matéria prima: você-ser-humano. Caso não tenha dito antes, agora está esclarecido.

Porém, tem algo que você ainda não sabe: eu tranquei a faculdade e me mudei para os Estados Unidos (por que diabos, você que se encontrou em Psicologia, fez esta merda? – você pode se perguntar, eu particularmente me pergunto, às vezes). E eis aqui onde todos os meus problemas e insônias e indagações acerca do que estudar começaram, visto que é de senso comum que ou se é bom em várias coisas ou muito bom em uma coisa só.

Veja bem, jamais duvide do meu amor à Psicologia, menos ainda do meu amor à Literatura. Eis o que me aflige. Eu amo duas coisas completamente ligadas, mas que seguem rumos completamente diferentes e eu me vejo hoje, com os pés nos 25 anos, parada no meio do caminho pensando o que persigo: o ovo ou a galinha? Porque oras, se não existisse o ser humano pra quê diabos existiria a palavra? E se não fosse a palavra com quê diabos a gente iria se comunicar nesse mundo?! (Esse é um daqueles momentos que eu quero gritar pro mundo: olha que coisa mais linda esses dois assuntos tão interligados assim!!!).

Se eu escolho dedicar a minha vida às Letras, no meu imaginário, eis o que eu ganho: regras; respostas; descobertas; teorias; no geral coisas que você (ser humano) vai colocar em prática como e onde quiser, com a interpretação que quiser – isso é, se você quiser. Já se eu escolho dedicar minha vida à Psicologia, no meu imaginário novamente, eis o que eu ganho: exceções; perguntas; explicações e descobertas de novos padrões; no geral coisas que você (ser humano) faz, querendo ou não fazer, entendendo ou não o porquê.

Analisando o meu ideal de atuação, meu amor pelo ser humano é (quase milimetricamente) maior que o meu amor à palavra; ainda não sei te dizer se irei perseguir o ovo ou a galinha, mas posso te garantir que eu seria uma poetisa frustrada em não ter sido também psicóloga; mas eu serei a psicóloga mais realizada profissionalmente se eu conseguir conciliar meus dois grandes amores. Agora, na pior das hipóteses, se eu tiver que escolher entre apenas um grande amor e me tornar apenas uma admiradora secreta do outro; apesar de ter crescido entre palavras, apesar de ter sido o meu primeiro grande amor, a literatura que me perdoe, mas eu estudo a poesia viva.

sábado, 15 de setembro de 2018

Bloqueio Criativo


"Bloqueio criativo é um fenômeno envolvendo a perda temporária da habilidade de continuar a gerar conteúdo, geralmente por falta de inspiração ou criatividade."

Escrevo há pouco mais de uma década e sofro desse mal antes mesmo de tomar consciência de que escrevia; hoje me deu saudades de falar sobre alguma coisa e, por que não sobre isso?

Lembro-me do meu primeiro bloqueio, eu ainda não tinha meu blog e salvava todas as minhas crônicas no meu computador, aqueles brancos de tubo, que a gente conectava na Internet discada e protegia o computador com capas plásticas, lembra? Um belo dia ele decidiu descansar em paz e eu perdi todos os meus textos. Passei seis meses em luto por isso, remoendo e repensando cada palavra e vírgula que eu havia perdido. Quando voltei a sentir a necessidade de escrever, criei o blog para que as chances de perder meus textos novamente fossem drasticamente reduzidas – não vamos dizer extintas, porque nunca se sabe quando uma plataforma resolve sair do ar.

Meu segundo grande bloqueio foi quando cheguei à conclusão (depois de muito ler e pensar em paranoias desnecessárias) de que tudo já havia sido escrito. Absolutamente tudo. Então, passei alguns meses pensando que eu tinha um dom/hobby/amor por algo “desnecessário”; todas as histórias que foram e continuam sendo contadas são e sempre serão as mesmas, por mais que eu me empenhasse em algum trabalho e modificasse sutil ou drasticamente o enredo, eu sentia que não estava fazendo nada de novo, e isso me desmotivava. Mas percebi que, apesar disso, a agitação interna de querer explicar, mais uma vez e sob outros pontos de vistas, era maior do que o desconforto em saber que alguém já havia estado ali antes. 

Então, pela terceira vez, fui bloqueada após três semestres cursando Psicologia, onde minha visão de mundo havia começado a se modificar e, inquestionavelmente, meu vocabulário também. Ao mesmo tempo em que eu gostava de ter um novo repertório e uma nova linha de raciocínio nos meus textos, eu já não me reconhecia neles ao finalizá-los; esse bloqueio perdurou um ano. Escrevi com uma frequência pequena, mas boa o suficiente para que eu aceitasse e aprendesse que aquele era o meu estilo de escrever, por assim dizer, a partir de então. E mais, aceitei que isso vai mudar constantemente com o passar dos anos e nada posso fazer a respeito. 

Pela quarta e última vez (por enquanto, pois é o bloqueio onde ainda me encontro) foi quando eu percebi que já não havia motivos para escrever suficientes que suprissem a minha vontade de fazê-lo. Eventualmente, como agora, sinto a necessidade de escrever à quem me lê como alguém que escreve à um amigo, sem um enredo elaborado, sem dizer sobre um coração partido ou transbordando de amor, apenas compartilhar uma informação; seja ela uma banalidade do meu dia ou uma angústia que me inquieta. Mas eu, que passei minha primeira década com o olhar distante de quem me lê, sem realmente trocar uma ideia, sem falar informalmente, sempre te fazendo sentir meus textos como se fosse uma sensação sua, e não minha, me vi completamente perdida.

Agora, por exemplo, fico me questionando se você está pensando algo como: "Que legal! Conhecer a parte mais humana e menos a poética.", ou se realmente já não está pensando nada, pois não consegui prender sua atenção até aqui (se for esse o caso, me desculpe, mas preciso fazê-lo primeiro por mim). Em todo caso, se esse bloqueio vai passar, como os anteriores, ou se me adaptarei a ele, como o último, só o tempo para nos dizer. Talvez eu aceite um meio termo e siga sendo não só alguém que descreva uma emoção sua, mas também alguém que compartilha as próprias emoções.

Por hora, posso dizer que com todos os meus bloqueios – porque sim, existiram outros que duraram um pouco menos e não tiveram um impacto para que eu me lembrasse com o passar dos anos – aprendi algumas coisas: 1) Eu nunca vou deixar de me encantar com a escrita, com o poder de tocar e ser tocada pelo outro, pela beleza que eu enxergo em cada vírgula, poema, página em branco, reticências... 2) E enquanto eu puder vou continuar fazendo, ainda que só para mim, pois é a minha maneira de lidar com o mundo. 3) E, caso eu esbarre em alguém que seja tão apaixonado – leia: louco – por um encantamento tão banalizado e esquecido que é a literatura (seja ela extraordinária ou humildemente a minha), por um segundo ou dois a sensação será a de que minha alma trocou de casa por alguns segundos, de que eu encontrei o motivo pelo qual eu comecei a escrever, ainda criança; de que eu reencontrei a Gabriella que passava horas, dias, enfiada em páginas e páginas e chorou todas as vezes que foi ao Museu da Língua Portuguesa... Isso, ouso te chamar de meu amigo, não tem preço. 

Mas, em todo caso, se algum dia eu desistir de escrever, voltarei ao meu segundo bloqueio em paz, afinal, tudo já foi escrito.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Pensamentos e um café

Sentada, tomando uma xícara de café e divagando, olhei para a parede e dei de cara com uma foto minha – uma das minhas preferidas: de perfil, com o riso fácil, olhando o horizonte, com os cabelos ao vento. E era como se eu ouvisse aquela versão de mim, dizendo a mim mesma: “Sorri menina, esse sorriso é tão elogiado e não é à toa, olha esse mundo de oportunidades e possibilidades à sua volta, corre para conquistar os sonhos que ainda não conquistou e sonhe o mais alto que puder.” Dei um soco na mesa. Desculpe, não consigo controlar meus sentimentos muito bem. Ainda. Porém, consegui segurar as lágrimas dentro dos olhos e corri para o computador para escrever antes que eu me esquecesse.

Com o pensamento acelerado, não consigo distinguir muito bem o que eu espero de mim mesma, nesse momento dizem que só posso aproveitar o luto. Percebi que ele é o meu próprio luto, me doei, modifiquei e apaguei tanto de mim mesma que agora o vazio me desespera. Tenho uma pasta no computador cheia de textos pela metade; na estante, cinco livros me esperam para contar como terminam suas histórias; minhas matérias da faculdade estão entre 70% e 98%, não concluo nenhuma. E hoje me desafiei a terminar algo: esse texto – ou lembrete, carta, aviso – a mim mesma. Não sei se esse problema que passei a ter com conclusões tem a ver com o fato de que não consigo mais me concentrar sozinha, ou se é justamente o contrário, me tornei dependente de sempre ter algo que dependa de mim.

Mas, me esqueci do mais importante, eu já tenho algo que depende 100% de mim: eu mesma. Aquela menina sorridente da foto me olha com ternura, como se estivesse orgulhosa por tudo que já conquistei de lá para cá, e dizendo para eu ter calma e prestar atenção em cada flor e pedra no meu caminho, pois quando eu olhar para trás irei me orgulhar das pequenas alegrias dos meus dias e dos grandes ensinamentos que tirei dos momentos difíceis. Ela me diz também: “Não abra mão de tudo o que compõe o que você é por ninguém, pois os caminhos se cruzam e descruzam ao longo da vida, mas só você mesma estará lá do começo ao fim.” Acho que devo começar a ouvi-la, afinal.

Ontem eu ri na cara do perigo. Olhei dentro dos olhos de um – atualmente – amigo. O mesmo amigo que há alguns anos foi embora da minha vida e me levou junto, não havia sobrado nada de mim para contar a história. Hoje, cinco anos mais madura (e calejada) eu o olhei dos pés a cabeça e me orgulhei da mulher que me tornei desde que ele foi embora e me levou consigo, do quanto eu consegui me reinventar e me superar. Penso que se eu consegui me achar em um momento onde achei que não havia sobrado nem eu mesma; consigo agora, mesmo com meu peito doendo como se tivessem arrancado meu coração com as mãos, igual a bruxa da Branca de Neve faz.

No final das contas, percebo que somos eternos aprendizes, nosso eu do passado nos olha com orgulho do que somos e nosso eu do futuro nos olha com ternura e paciência. Se pudéssemos pular os maus bocados da vida, quase nada sobraria. Essa mesma menina de riso fácil me espera lá na frente, rindo do quanto eu chorei por isso tudo; mas ela nada pode fazer, além de me observar passar por tudo isso. Bom, hoje eu salvo esse documento, desligo meu computador e volto ao meu café. Quem sabe aquela menina da foto não me conte mais algumas coisas. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sonho x medo

Você já teve uma paixão platônica? Alguém que você idealiza um relacionamento perfeito de conto de fadas, mesmo não a conhecendo a ponto de saber se seria realmente tudo aquilo. Onde a graça é justamente essa, ser apenas fruto da sua imaginação e pronto, qualquer pitada de realidade estragaria tudo.

Sou assim com meus maiores sonhos. Hoje tenho maturidade (e, talvez, conhecimento) para entender que saboto meus planos antes mesmo de colocá-los em prática. "Por que?!" Você me pergunta. Por medo do potencial fracasso, concluo agora. Mesmo sabendo que se eu não fizer nada eles não se tornarão realidade, sei que começar alguma coisa pode fazer com que eles deixem de ser sonhos.

Com isso, abro novos caminhos. Comecei um curso diferente, o qual nunca sonhei, e chego aqui no motivo desse texto: oportunidade. Estou a caminho do quarto semestre, vejo que por fim estou criando raízes na faculdade, olho o longo caminho pela frente com ansiedade e alegria, imaginando a psicóloga que serei. Isso tudo porque, me atrevo a dizer: eu não tive, nem tenho, medo.

Lidar com o maior sonho da minha vida, equivale a lidar com o risco do maior fracasso da minha vida também. Nunca sonhei ser psicóloga, então dou o melhor de mim para essa formação, sem nenhuma expectativa em cima disso, e me torno a cada dia a melhor psicóloga que poderia ser. Agora, escritora, quanto mais eu sonho com meu livro, mais pressão coloco em mim mesma, sobre cada vírgula nova que escrevo.

E isso tudo me faz deixar, ano após ano, o sonho da faculdade de Letras e o de colocar no papel meu primeiro - e tão idealizado - livro em standby. Mesmo sabendo o quão errado isso é e que, acima de talento ou dom, escrever é minha alegria; continuo mantendo em cativeiro o protagonista do meu primeiro romance. Você nem imaginaria, mas ele tem medo de que eu desista antes de poder contar a você a história dele.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Engrenagem


Acordei às dez horas e fui ao mercado. Voltei, comecei a arrumar a casa e a colocar em dia algumas coisas pessoais. Sentei-me para tomar um café e então percebi que já eram sete da noite, e que era a quarta vez que parava para comer. Assustei-me ao notar como nosso tempo voa enquanto nos mantemos ocupados com coisas que gostamos.

Pensei no varal cheio de roupas que havia acabado de estender, e me lembrei que antes disso eu havia precisado recolher as que já estavam secas. Rindo, me perguntei quando é que aquele varal estaria sem roupa alguma, até que conclui que a resposta seria nunca.

Comparei uma casa a uma engrenagem. São infinitas coisinhas que precisam ser refeitas dia após dia, mas em uma ordem onde nada vai acabar junto. O ciclo: cozinhar, lavar, passar, limpar, guardar (...) não é sequencial. Enquanto a louça está limpa, o quarto já está por varrer; quando a roupa está no varal, já é necessário limpar o fogão.

Você deve estar se perguntando porque, em pleno sábado, estou falando sobre cuidar da casa. Permita-me explicar: cresci entre dois extremos. Filha de uma amizade colorida, sempre tive duas casas, uma com um pai extremamente metódico, para não dizer perfeccionista; e outra com uma mãe extremamente esquecida, que não se incomodava tanto com bagunça.

Com isso, nunca percebi a mágica na funcionalidade de uma casa. Em alguns dias da semana eu precisava decorar o ângulo certo de cada coisa em cima da mesa, antes de retirá-la, para poder voltá-la ao mesmo lugar. Em outros, eu largava o tênis na sala e uma meia em cada cômodo. Eu ajudava a cuidar de ambas as casas, porém com ciclos e rotinas completamente diferentes.

Hoje já não moro com meus pais nem sou mais criança. Admito o quão difícil é manter a casa “um brinco”, como diriam nossas avós. A frase: “Uma casa limpa é uma casa sem vida” nunca fez tanto sentido para mim como agora. É um conjunto de manias habitando o mesmo espaço – caso você more sozinho, considere seus níveis de humor – com costumes e tempos diferentes, fazendo a engrenagem rodar.

Não pense que quis dizer que gosto de bagunça, muito pelo contrário. Disse que, por gostar tanto de estar em um ambiente agradável, vi mágica até no organizar. Porque esse ciclo, que exemplifiquei acima, nada mais é que a vida no dia a dia dessa casa, as peças funcionando juntas. A louça do jantar foi limpa e o quarto varrido, enquanto eu acabava de repousar minha xícara de café na pia.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Realização profissional x pessoal

Ultimamente participei ativa e também  indiretamente sobre conversas com os temas: "O que você quer para o seu futuro?"; "Trabalhe com aquilo que ama e não terá de trabalhar." E, ainda: "Corra atrás dos seus objetivos a longo prazo." E todos esses assuntos me fizeram pensar, em círculos.

No meio dessas conversas eu ouvi de alguém: "Meu objetivo é ser feliz." Fiquei com inveja de um objetivo desse em pleno século XXI e não me contive em prestar atenção na conversa. Quando questionado sobre carreira e bens materiais esse mesmo alguém respondeu: "Você não é sua carreira nem o que você tem; você é feliz?" Eu, ouvinte, a moça, ativa na conversa, entramos em conflito existencial, tenho certeza.

Houve um tempo em que eu tinha um salário razoavelmente bom para minha idade, muitos compromissos e estresses – desnecessários para a minha vida pessoal – e muita, muita coisa nova no meu guarda roupa ao final de cada mês. Confesso que chorei por conta do trabalho e não consegui dormir; desejei um final de semana só para mim, com nada para fazer.

Três anos depois eu consegui o que queria – graças à crise – e sinto falta daquele salário razoavelmente bom e roupas que nunca serão usadas. Confesso que dormi, descansei, saí, matei saudades porque eu tive tempo livre, voltei até a ser bastante criativa e nunca mais chorei por estresse - de terceiros.

Me vem à mente, ainda, aquele famoso ditado: "Quem tem tempo e disposição, não tem dinheiro; quem tem dinheiro e disposição, não tem tempo; quem tem tempo e dinheiro, não tem disposição." E parece que, de fato, nunca estamos completamente satisfeitos, é necessário abrir mão de algumas coisas para buscar outras maiores.

Mas, o que são essas coisas maiores? Paro para pensar em realização pessoal e vejo como tantas pessoas a confundem com realização profissional, status, dinheiro. Ter trás uma falsa sensação de alegria que muita gente se esquece que ser é o mais importante, passando, assim, grande ou toda parte de sua vida correndo atrás de preencher a conta bancária, em vez da alma.

Com esse tempo de folga percebi o que andei fazendo errado, podendo assim recomeçar da maneira certa. Seguir o objetivo daquele alguém que eu ouvi certo dia: "Ser feliz." Sem precisar me importar com o que falam e impõem por aí, afinal, o principal objetivo de vida é a felicidade. E eu? Bom, vou correr atrás da minha.

domingo, 28 de maio de 2017

Emma


Quando pequena, nunca tive oportunidade de ter um animal de estimação, além dos peixes Beta que minha mãe me dava. Admirava a dedicação, amor e carinho com que meus amigos e familiares cuidavam de seus cachorros e gatos, sonhando com o dia que eu tivesse o meu, imaginando qual nome daria e como ele seria, fantasiando como seria minha ligação e paciência com ele. 

Nada do que eu imaginei chegou perto do que realmente foi. Eu não escolhi, mas fui escolhida. Minha casa vivia com um gato ou outro a me visitar; até que a Emma chegou e ficou. Nos primeiros dias ela foi chamada de Robin, pois não sabíamos se, de fato, ela era fêmea. Com o tempo, ela foi ganhando espaço em casa, inclusive em cima da cabeça da minha mãe, até finalmente roubar nossos corações. 

Quando ela já estava dominando todo o território que quisesse, Emma começou a ter um sangramento e precisei deixá-la dormir do lado de fora, estávamos tão acostumadas a dividir a cama que não sei qual coração se partiu mais, o meu por não poder mexer nela durante a noite ou o dela por não poder deitar em cima das minhas costas. 

Levei-a ao veterinário, marquei ultrassom; passeamos de ônibus e de Uber, a vi assustada em um ambiente com pessoas que nunca vimos, mas me mantive firme, para acalmar a ela e a mim. Quando ela foi operada, fiquei do lado de fora como uma mãe ansiosa e aflita, a cirurgia acabou rápido, mas a anestesia duraria ainda algumas horas. 

Lembro do veterinário me explicando tudo e o quão difícil seria para minha mãe e eu darmos remédio a ela; passei no petshop para comprar a roupa cirúrgica e os remédios e fomos para casa. Cheguei e a vesti antes que acordasse, mas ela estava tão imóvel que eu, mãe de primeira viagem, chorei copiosamente em desespero, com medo de que ela não acordasse mais.

As primeiras horas após a cirurgia, onde eu dediquei meu dia totalmente a ela, pois ela mal parava em pé, os primeiros dias em que minha mãe e eu facilmente dávamos remédio, toda minha paciência, preocupação e dedicação com um ser que não podia me falar nada, mas deitava no meu colo com aquele ronronar em agradecimento que aquecia meu coração. 

Os dias finais do remédio, onde ela estava forte o suficiente para dificultar o nosso trabalho, quando ela voltou a comer normalmente, miar quando via minha mãe perto do pote de ração, ou suas travessuras em cima do guarda roupa e das taças da cozinha.

Quando chorei e ela ficou ao meu lado, me olhando e colocou minha mão entre suas patas, o que me fez chorar mais ainda. Quando eu deitava na rede para ler, ela dava um jeito de subir e ficar ali, até que ficasse desconfortável e ela descesse e deitasse no chão, ao meu lado. Ou quando eu fazia abdominais e ela se deitava em cima de mim, claro.

Tantos pequenos e infinitos detalhes que vistos de fora não têm importância, mas que você, dona/mãe, mata e morre pelo seu filho de estimação. Você se acostuma, se dói, se preocupa e se desespera por essa pequena vida que lhe foi confiada; nada é tão gratificante quanto tê-lo ali, contigo. 

Só que todo esse ciclo tem um fim e eu também não imaginava como seria a despedida, já vi amigos perdendo seus animais de estimação e achei que eu não sofreria tanto, doce engano... Nenhum tipo de perda é aceitável ou dói menos, não ter seu melhor amigo ali contigo todo dia é desesperador, no início. 

A Emma costumava sair enquanto eu não estava e voltava próximo ao meu horário de chegar, com isso, me acostumei a checar a garagem e o quintal, sempre que chego em casa. Procurei-a quando cheguei, nada. Um dia, dois. Uma semana. Disseram-me que era normal, gatos somem mesmo, mas eu sabia que ela não era disso e me desesperei em constatar que ela não voltaria mais; mesmo assim não deixei de checar minha casa, por costume. Hoje não olho mais, mas quando escuto gatos no telhado prendo a respiração para ver se reconheço o miado dela, é em vão, eu sei, mas é também involuntário. 

Ela se foi, e o pior é não saber para onde, se está bem ou viva, sendo cuidada ou não. De qualquer forma, o amor que senti e aprendi com ela está aqui e ficará guardado para sempre no meu coração. Esse texto foi para guarda-la, o mais detalhadamente possível, na minha memória. 

domingo, 30 de abril de 2017

Aspirante a escritora


Tentando me definir, aos vinte e poucos anos, me autodenominei “aspirante a escritora” e comecei a pensar nisso. O que me faz, de fato, ser ou não escritora é o simples ato de escrever sobre qualquer coisa. A princípio, fiquei triste por pensar que meu único dom é algo simples, que pode ser aperfeiçoado e dominado por qualquer pessoa, então continuei pensando a respeito, sobre quantas pessoas realmente dão importância à escrita, se dedicam e gostam disso e novamente me senti capaz de, em longo prazo, fazer a diferença com isso.

Penso na trajetória que já percorri e no quanto ainda falta, tento lembrar quando decidi me intitular tal coisa e quando o comecei a ser, na prática. Desde criança, os recreios passados na biblioteca, semanalmente, a procura de em qual livro iria me aventurar, foram tantos amigos que carreguei no peito, colo e mochila, que não sou capaz de lembrar todas as histórias. Depois, arrisquei-me a começar a escrever vez ou outra sobre meus dramas adolescente e eis que hoje releio e dou risada – mas também me orgulho de como tão nova eu já conseguia deixar qualquer história banal dramática o suficiente pra se tornar ficção.

Escrever é uma terapia, talvez para quem me leia, mas principalmente para mim, que escrevo. Sou daquelas que faz listas sobre o que é preciso comprar, o que precisa ser feito no decorrer da semana ou de coisas que não posso esquecer. Tenho a ânsia de tirar da minha cabeça alguma coisa que só sai, permanentemente, através da escrita. Seja algo superficial ou importante, precisa ser dito, descarregado. Depois disso passa e quando, por acaso, releio um escrito meu, dou risada de que aquilo tivesse me incomodado a tal ponto.

Incômodo esse que não necessariamente é algo ruim. Este texto é um exemplo disso. Talvez, de fato, eu não seja nada querendo ser alguma coisa. Com absoluta certeza existem centenas de milhares melhores ou mais corajosos que eu nessa arte. Não recebo nada em troca, além da paz que isso me dá, alguns elogios sinceros e tantos outros superficiais. O fato é que discorrer sobre causos, verídicos ou inventados, é a pedra que eu vim a Terra para lapidar. Em uma década de prática ainda não cheguei aonde desejo, mas terei mais alguns pares de vinte anos para chegar lá.

Enquanto isso, eu escrevo sobre o que necessito ou incomoda, o que motiva ou inspira. Escrevo sobre sonhos e vontades, medos e verdades. Crio documentos que vão do anonimato à lixeira, invento histórias e penso que, um dia, as publicarei. Entre uma vírgula e outra vou lapidando esse dom e no percurso (e com sorte) vou tocando o coração de quem compartilha desse mesmo amor comigo, que é poder brincar, se sensibilizar e ser curado através de histórias e palavras.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Amor em signos

Estava pensando sobre o amor.
Em uma conversa entre amigos, falávamos sobre os signos que são apegados e os que são tachados de "sem coração"; quando eu, taurina, comentei a respeito da minha experiência com um aquariano.

Na conversa, discutíamos acerca de como lidar com as amizades com pessoas do sexo oposto, sair ou não sem o companheiro em uma sexta-feira à noite, entre outras coisas. Comentei que, quando namorava, não existia isso de "você não pode", ou "você não vai". Estávamos juntos sem deixar de estarmos livres.

Um amigo – capricorniano – brincando disse que eu poderia ministrar palestras às mulheres, para elas entenderem o que levei meses para entender sobre amor e liberdade. Contei-lhe que aquilo foi um aprendizado e tanto e que, a partir de agora, é pré-requisito indispensável para um relacionamento futuro.

Comentamos, também, sobre homens que namoram, mas se veem "obrigados" a conversar com amigas mulheres às escondidas, para evitar brigas. Mal sabem suas namoradas que eles eram amigos dessas mulheres antes de se tornarem seus namorados; e, além disso, quanto mais proibimos, mais chances damos ao outro de mentir para nós.

Quando meu ex-namorado, aquariano, falava sobre alguma amiga, ou quando eu – taurina – falava de algum amigo, era tão normal como quando discutíamos o sabor da pizza que iríamos pedir ou escolhíamos o que assistir no Netflix. E, devido a essas reflexões me vi, mais uma vez, pensando sobre o amor.

Antes de tudo, amar não é sinônimo de estar junto a alguém. Conhecemos muitos casais que sobrevivem de aparências e por comodidade, o que nada tem de bonito. Conhecemos, também, tantas outras pessoas que se amam o suficiente para estarem juntos, mas não estão.

Certa vez me disseram: "Amar é querer estar o tempo todo juntos, não só quando se quer." Juro que, na ocasião, ri da contradição do meu colega, afinal ele mesmo assumiu que, no fim das contas, estar junto é uma questão de querer. Disse-lhe que o fato de uma pessoa querer estar sozinha um dia, uma semana – ou o tempo que for – não anula o amor dela por outrem.

Refleti sobre o amor pois, quando mais nova, pensava da mesma forma que esse colega; que vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, não é suficiente quando a gente ama. Porém, com o tempo, compreendi que isso nada mais é do que falta de amor e interesse em si próprio, revelando o medo da solidão que existe em toda e qualquer pessoa.

Atualmente – apesar de termos falado sobre signos e suas características no amor – penso que amar nada mais é do que um querer bem. Confiar em alguém, em si mesmo e no relacionamento em que você se encontra. Pois, se você estiver com alguém que é livre o suficiente, existem duas possibilidades: ou essa pessoa sempre voltará para você, não importa por onde ela vá; ou ela não voltará, mas você se ama e a ama o suficiente para ficar feliz pela decisão dela e feliz com sua própria solidão.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Magia de carnaval


Com tanta gente que odeia carnaval, inclusive eu que, por anos, torci o nariz a respeito dessa festa, me dou ao direito de falar sobre e com, talvez, propriedade no assunto. 

Concordo plenamente que o Brasil tem questões maiores e mais importantes a tratar do que mimar os gringos com as belas moças e as músicas baixas do país, mas gente, sério mesmo, vocês não se sentem bem em um evento de carnaval, cantando marchinhas?

Cheguei ao trio elétrico com aquela vontade de estar em casa dormindo ou assistindo Netflix, confesso. Mas as pessoas têm uma energia tão boa, pura e mágica que é impossível que alguma tristeza ou mau humor prevaleça.

Meia dúzia pega o celular para registrar o momento em redes sociais (assim como eu e meu grupo de amigos), mas esses registros são superficiais perto dos sorrisos sinceros que são distribuídos aqui. 

Talvez seja porque eu sou apaixonada por gente e fique viajando no gesto delicado, quase despercebido, de cada um aqui. No carnaval tem coisas ruins? Infinitas. Mas deixe-me falar das boas:

·         Sorrisos constantes e involuntários entre pessoas que nunca trocaram um oi;
·         Cumprimentos calorosos e abraços aos grupos vizinhos;
·         Caça talentos de pessoas que têm um repertório de músicas populares infinitos;
·         Caça talentos de dançarinos natos, que se dedicaram a outras profissões em suas vidas;
·         Compartilhamento de lanche (ou bebidas), no estilo piquenique;
·         Coreografias ensaiadas em casa com a família, funcionando em perfeito sincronismo entre centenas de pessoas.

Dentre mil outras situações compartilhadas, que afetam de maneira singular cada um que está ali. Alguns prestam mais atenção às pessoas, outros às roupas e fantasias, outros prestam atenção nas músicas, alguns que vão procurar um amor que dure após o carnaval.

A grande mágica desses dias é que até mesmo aqueles que vão para curtir como se não houvesse amanhã (e/ou fazer uma lista quilométrica de bocas que beijou) estão entregues a magia que pode acontecer. Se você abrir seu coração, vai perceber que o calor humano presente ali não está somente no sentido físico, vai além, todos ficam conectados como se fossem irmãos.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Lembranças


Ontem fui caminhar no parque da cidade onde moro e vi vários adolescentes com mochila de escola, alguns casais, outros em grupinhos de amigos e fiquei nostálgica, tentando puxar na memória quando era eu ali. Com isso, achei graça de como esquecemos rápido das coisas que não temos o costume de pensar no dia a dia e, depois de alguns anos, quando lembramos daquilo, é como se fosse um sonho distante, quase como se não tivesse acontecido.

Eu já tive um namoro de escola, aonde íamos ao parque depois da aula por não ter dinheiro nem lugar para ir, já passei tardes naquele parque com tantos amigos que, ao tentar me lembrar dos momentos, me escapam alguns. Já fiz trabalhos de escola e até reuniões com a turma do ensino médio, isso tudo me parece tão distante agora.

Com isso, por um lado fiquei triste por não termos (ainda?) um HD externo, que fosse possível salvar tudo o que não cabe em nossa memória, mas que não queremos perder, porque aquele momento valeu ouro. Por outro lado fiquei aliviada, pois ao mesmo tempo em que perdemos momentos felizes, perdemos também medos e mágoas de coisas que passamos, podendo, assim, seguir em frente e repetir os mesmos erros, até que se tornem ações assertivas.

Até ontem eu pensava, sobre alguns momentos muito bons que eu vivi ao lado de pessoas muito boas: "Não posso deixar isso morrer, preciso escrever sobre isso, ou tirar uma foto que seja, para que daqui dez anos eu me lembre de que isso foi real.", mas ontem percebi que não é possível, verdadeiramente, capturar e guardar sentimentos do passado. E não fiquei triste ao constatar esse fato. 

Pelo contrário, me dei conta de que, se eu encher meu "HD" com memórias de um passado, meu presente nunca será bom o suficiente. Isso porque a saudade, bem sabemos, deixa tudo com um tempero adocicado. Se eu passar pela mesma experiência pela oitava vez, comparando-a com as sétimas anteriores, eu já vou esperar um resultado que com certeza será diferente do real e só esse fato vai me deixar frustrada. Agora, se eu me permito apagar essas lembranças, ou melhor, deixa-las em desuso, cada vez que eu fizer uma coisa repetida, mas como se fosse minha primeira tentativa, aquilo será mágico.

É preciso saber deixar que o passado fique em seu lugar, por mais felizes que fomos com todos aqueles amigos, amores e lugares, para que novos amigos, amores e lugares preencham nosso hoje. Aquela lembrança boa não vai se perder mesmo que eu não me agarre a ela porque sempre tem um gatilho (como ontem no parque) que irá despertar essas lembranças. E as que não forem despertadas? Deixe-as ir! Vai ver nem era tão bom assim e não é necessário lembrar-se de tudo. O gosto da saudade pode até ser doce, mas é também um pouco amargo. O gosto do presente é o que se deve buscar sentir. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Formas de amar


Muitos dizem que só se ama uma vez, outros dizem que o amor está em tudo. Eu concordo com o segundo grupo. Há um tempo um moço me disse que não acredita no amor, até hoje me pergunto: o que ele quer da vida, então? Que sentido há viver, se não pelo amor? Bom, não falo mais com esse sujeito porque de gente que tem pedra no peito eu quero é distância.

Outro dia fiz a mesma pergunta para outra pessoa e ela deu a resposta que mais se parece com o que penso: “Sim, mas não acredito que haja diferença, digo, amamos nossos pais, familiares, amigos e nosso parceiro da mesma maneira, mas demonstramos esse amor de maneiras diferentes.” Achei lindo o que ele tem no coração: amor ao próximo, seja quem for.

Sou uma eterna apaixonada: pela vida, pelas coisas, mas principalmente pelas pessoas. Sendo assim, lógico que tenho historias para contar, dessas que chorei o suficiente para dizer: “Pra mim já chega!” Mas nunca chega. Amo o suficiente para me decepcionar um milhão de vezes e amar um milhão e uma mais.

De qualquer maneira, a resposta desse segundo moço me fez pensar nas possíveis e infinitas formas de se demonstrar amor. Eu sempre me perguntava: por que amamos sempre, mas cada vez é diferente? A resposta dele veio a calhar para eu pensar na minha própria teoria. Teoria essa de que se cada um de nós é um ser único e diferente de todos os outros, como haveria uma fórmula universal de amar? Não há.

Alguns, como eu, amam com palavras, outros mais seguros ou, talvez, fechados, amam com gestos. Os confiantes amam com os dois. Os mais felizes amam, lógico, com o sorriso. Os religiosos amam através de orações. Os céticos amam zelando. Os deprimidos amam aos prantos. Os desacreditados podem amar sem mesmo tomar ciência de que o que sentem é, de fato, amor.

Mas nos magoamos e brigamos porque queremos ver que o amor das outras pessoas é demostrado exatamente ao nosso modo, não somos donos de nada além de nós, é egoísmo querer que o próximo ame à sua maneira se você não souber amar à maneira dele.

O que está faltando é interpretação. Não só eu, como o mundo inteiro, precisa entender os sentimentos e as mais diversas formas que ele pode ser expresso. “Você é minha vida.” Pode não significar nada perto de: “Está tudo bem?” Se a primeira frase sair da boca de alguém que não te quer bem de verdade e a segunda de alguém que arriscaria a própria vida por você.