sábado, 8 de junho de 2013

Realidade transitória


Ouvi dizer que, quando a gente acostuma a voltar, desaprendemos a andar pra frente. Mas é que, difícil pisar onde não se vê. Voltar, mesmo que o caminho seja cheio de pedras, sabemos o que há ali e sabemos onde pisar.

Uma teoria ótima que inventei (mas que faz sentido) pra não procurar mais, de jeito nenhum, é que: “A realidade de ontem não é a de hoje.” Porque, pode até ser que éramos amigos, mas o verbo está no passado, hoje a gente é nada. Verbo no presente.

Não faz o menor sentido eu voltar pro primário, refazer minha catequese, parar minha melhor amiga do prézinho na rua e contar pra ela como foi a balada ontem. Essas coisas não são mais verdades, então maldita vontade de ligar, suma.

Ligar, nesse momento ou em qualquer outro que virá, verbo no futuro, seria como meu eu adulto procurar alguém que conheceu meu eu criança e logo, era criança também, mas agora é adulto. Esses adultos não se conhecem nem se gostam.

A gente chora e faz drama quando as coisas acabam, mas se não faz mais sentido acaba naturalmente, se não caminha pro mesmo lado, afasta, desencontra, descompassa, some. Um dia a gente até vê na rua, mas faz tanto tempo que você se pergunta: “Será que aquilo foi real?” E se foi ou não, sinceramente, tanto faz.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Nove anos



Me vi andando de bicicleta na rua de casa, rua que moro há oito anos. Me vi, com dezenove, de short e camisa, sem maquiagem e cabelos soltos voando conforme eu pedalava. Me vi nua, mas não no sentido literal. Só sem maquiagem, sem pudores, simplesmente coberta com qualquer peça de roupa sem pensar o que aquela vizinha fofoqueira ia pensar de mim.

Veja lá, dezenove agora, não nove, mas ainda querendo ser a professorinha que tem uma casa com jardim. Ainda cantando com o frasco de perfume se passando por microfone quando fico sozinha e dormindo com ursinho, acredite se quiser.

Um tempo atrás percebi que entrei no caminho errado e a vida de adulto faz isso com a gente, só se olhando no espelho, espelho, espelho... Quando se olha pra dentro: fútil! Vi e ouvi que a beleza nada importa se só existe por fora, em contrapartida, quem é lindo por dentro, transborda e mesmo que feio, ninguém vê.

Já pensei em usar um português difícil pra impressionar vocês, morrer de trabalhar pra ter um carro bacana e uma casa que comportaria trinta de mim, só pra você ir tomar o chá da tarde e morrer de inveja. Depois, ao me ver com dezenove desse jeito como se tivesse nove, desisti disso tudo, pra ser a professorinha que tem uma casa com jardim.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Caber



Sempre tem um divisor de águas, o que você era antes e o que você se torna. O que quer dizer, talvez naturalmente, que vocês não foram feitos para ficar juntos porque não cabe mais, não faz mais feliz, outra pessoa começa a caber.

Não existe essa de ser feito pra ficar junto, ser a tampa da panela, amor eterno e pronto. Isso tudo foi inventado pra quem vive acomodado se sentir feliz. Nem falem que sou fria demais, sou realista, tudo que não cabe mais eu jogo fora. Roupa, sapato, lembrança.

Acho tão feio quem não joga. Sai com roupas do verão passado, usa sapato apertado, fica ao lado de gente que não faz feliz. Coisa incômoda essa de viver no lugar errado. O tempo é presente, passado morreu faz um segundo.

Eu tive amigos que duraram anos e alguns foram coisa de momento, os de momento, quase sempre, foram os mais verdadeiros. Porque ficaram cem por cento do começo ao fim. Não teve desgaste, não teve ninguém soltando o outro lado de pouquinho em pouquinho. E sem paranoia na hora de ir embora, entende? Não se apegue ao que não funciona mais.

Gente que inspira. Que faz minha bochecha ficar rosa, meu coração até bater diferente de vez em quando, inspira a ler, criar, imaginar, até vontade de dançar me dá. Se essa pessoa vai embora em dois ou dez dias ou ficará para sempre? Não importa. Enquanto couber eu vou vestir.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pelos lados



Só pra não esquecer como a liberdade é boa. Sorrir, rir até doer a barriga e a bochecha. Andar descalça. Sentir o vento batendo no teu corpo e voar. Ir a qualquer lugar sem tirar os pés do chão. Sonhar e não deixar ninguém entrar no meio disso.

Só pra não esquecer também que ninguém é dono de ninguém. Que ciúme só é bonito em novela e que o amor pode acabar a qualquer momento. Ouvi dizer que amor é igual jardim e se não cuidar ele morre, faço meus votos pra que isso seja reconhecido mundialmente.

Verdade. Ou você acha que as coisas sobrevivem sem cuidados? Olha amigo, eu não sobrevivi e fui embora. Sai tão clara que não quero nem olhar pra trás. Triste te dizer, mas foi como se eu tivesse sido libertada. E ai de você se disser que isso é dor de cotovelo.

A dor veio antes de eu me olhar no espelho. Antes de eu perceber, mais uma vez, que é errado depositar a vida na vida do outro. A nossa vida a nós pertence. Portanto, dei tchau ao comodismo e caminhei ao meu encontro.

Viver comigo é tão bom que vou fazer exatamente como disse Clarice Lispector: "Não procure alguém que te complete. Complete a si mesmo e procure alguém que te transborde." Alguém que também se ame tanto e que juntos, a gente faça cair felicidade pelos lados.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Emaranhados



Mundo. O nosso e de cada um. Imagem, gosto, cheiro. Som, valor, sentido, toque, respiração, milímetro. Entende? Milímetro, intensidade. As palavras estão soltas porque cada uma trás um significado próprio, imenso e absurdo, para e pensa em cada uma. Palavra, nó.

Dentro dessas palavras vêm nossos sentimentos (amor, ódio, medo, ansiedade...), elas movem o mundo e fazem com que ele, apesar de tão único, seja um todo completamente emaranhado.

Uma das minhas maiores vontades é sentir o que o outro sente, absorver o sentido que cada um dá a essas palavras. Conhecer vários mundos e o que eles têm em comum, porque o que houver em comum é o que há de mais importante.

A morte e o fim do mundo não são sinônimos. Alguém pode estar completamente morto em seu mundo e continuar vivendo, assim como quem tem fé continuará vivendo além da morte.

Agora, todos aqueles clichês: "Valorize seu tempo.", "Ame o próximo como a si mesmo.", "Aproveite o dia.", "Não guarde mágoas." E infinitos mais que fazem todo o sentido e devem ser ouvidos porque, justamente por termos o poder de tocar no mundo do outro com o nosso, devemos cuidar do nosso como se fosse a coisa mais importante que temos.





Abaixo o trecho que me fez começar a pensar no assunto desse texto. 
Livro muito bom e vale a pena ser lido!

"– O que é destruir o mundo? – pergunta.
– É destruir uma simples vida. O universo acaba ali. Tudo aquilo que a pessoa viu, experimentou, todas as coisas más e boas que cruzaram o seu caminho, todos os sonhos, esperanças, derrotas e vitórias, tudo deixa de existir."
Paulo Coelho em O Vencedor Está Só.