sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A quem amar?


Somos programados a acreditar na estrutura perfeita de família: mãe e pai, posteriormente um ou dois filhos, todos felizes para sempre. Confesso que nunca vivi esse conto. Confesso ainda que, se vi esse conto na vida real umas quatro vezes, foi muito. Até os mais céticos acreditam nisso, mesmo sem perceber.

A estrutura familiar que conheço, na maior parte das vezes, é uma bagunça! Compõe-se de pai casado, com filhos, uma amante e um bebê. Uma adoção. Irmãos com diferença de idade tão grande que não criaram laços, quando a caçula nasceu o mais velho havia acabado de se casar. Um casal e ponto final. Uma mulher e um gato, um homem e um cachorro, ou o contrário.

Dentro desse conto vem outro ainda maior: que devemos amar nossa família acima de tudo. Mas, o que é família exatamente? A mãe que pariu ou a avó que criou? O pai que sumiu ou o padrasto que trocou todas as fraldas? O irmão de sangue que não cresceu junto ou o vizinho que se tornou um irmão de alma? Quem impôs quem cada um deve amar, afinal?

Se eu tive mais afinidade com minha prima ou minha vizinha do que com minha irmã, preciso me sentir culpada por não amá-la incondicionalmente? Afinal, ela é sangue do meu sangue. Se a filha da minha melhor amiga se tornou minha afilhada e minha sobrinha não me reconhece na rua, a culpa é minha? Afinal, filha da minha irmã, deveria ser o meu xodó.

O ser humano é tão diverso e tão plural que seria um erro tentar mensurar o que é família para cada um de nós. O que nos cabe é respeitar a história que cada indivíduo traz consigo e valorizar os laços que criamos com aqueles por quem tanto prezamos. Pois a família é feita assim: dia após dia, e as conexões entre as pessoas vão muito além das classificações genéticas que, feliz ou infelizmente, colocam-nos sob o mesmo teto (ou não).

Criar a expectativa, dentro de nós, de que nossos familiares estarão sempre ali, nos amando e apoiando é criar a primeira frustração da nossa vida. Amar é um sentimento tão intenso para que alguém imponha como se deve conjugá-lo. Ninguém é obrigado a amar alguém somente porque compartilha de seu sangue ou de seu sobrenome.


Redigido com a ajuda de Denis Fonseca.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Uma década


Dia desses estava no trabalho e recebi uma mensagem no celular, uma amiga de uma década mandou uma foto nossa no ano em que nos conhecemos. Sim, uma década. Engraçado ainda estar na casa dos vinte e já ter amizades de longa data. Amigos de dez anos passaram metade da minha vida ao meu lado, daqui a pouco eu terei vivido mais tempo ao lado deles do que sem tê-los conhecido.

Houve tempo para tudo nesse intervalo de anos, tanto na nossa vida pessoal, quanto em comum. Nós duas nos aproximamos e viramos amigas inseparáveis, mas nos separamos. Viramos conhecidas de oi do outro lado da calçada. Depois, colegas. Hoje assuntos em comum e maturidade nos tornaram próximas o bastante para quem namora, estuda, faz faculdade, trabalha, não trabalha mais, corre atrás de emprego – essas coisas.

Uma década nos fez enrijecer, talvez até amargar um pouco, mas não mudou nossa essência, tanto que uma foto foi capaz de nos fazer debater as complexidades da vida via mensagens, por quase três horas. Teorias e promessas que infinitamente fazemos e nunca cumprimos. Aquele medo do tempo passando, do envelhecimento.

Esse foi o tema da conversa: a reação em cadeia que fizemos e continuamos fazendo com nossa vida, constantemente sentindo falta do passado, planejando e sonhando com o futuro e deixando o presente de lado – presente esse que, quando virar passado, iremos sentir falta porque não soubemos aproveitar. Então, dessa vez, prometemos que vamos fazer diferente, mas daqui a pouco estamos nós no hospital com pressão alta ou crise de gastrite, vamos morrer com pouca idade e velhas se não mudarmos isso logo.

Confesso que desde que nos afastamos sempre a desejei aqui. Não houve um ano que eu não estivesse sentido falta da amizade, do papo furado, do colo quando estava arrasada e do sorriso quando estava feliz. Então pelo menos em relação a nós estou fazendo assim: ficando feliz cada vez que temos conversas aleatórias, sem remoer porque nos afastamos, sem sentir saudades de como era e sem imaginar se vamos nos aproximar mais ou nos afastar mais uma vez.

Meu desejo mais desesperado para nós duas é o mesmo: ver profundo e real sentido nas palavras: “Aqui.” E “Agora.” Caso precise tatuar (também), vá em frente. Não sinta saudades, não releia as cartas, se possível crie coragem de jogá-las fora. O que foi dito há um ano não é mais verdade, pode até estar escrito, mas o autor daquilo já mudou de opinião.

Também não planeje demais o amanhã, deixemos o tempo seguir seu curso natural, daqui um segundo o futuro vira presente e um segundo mais ele virará passado. Não percamos tempo em lugares onde não poderemos mudar a história. O único lugar onde podemos escrever é no aqui e no agora.

sábado, 16 de janeiro de 2016

“Nós Dois no Abismo”


Estou na vibe de uma década atrás, ouvindo e fazendo coisas que costumava fazer nos meus 11 anos. Ouvindo Sandy e Junior, jogando e lendo em vez de ficar em redes sociais, por exemplo. Eis que hoje coloquei o CD Replay pra tocar e notei a data de lançamento: 2006, quando me dei conta que isso é nada mais, nada menos que dez anos. Achava que eu era mais velha, mas não, naquele tempo eu era só uma criança de 11 anos que perdia as tardes no quarto desenhando com a voz desses dois ao fundo.

Achei interessante o fato de que mesmo depois de anos sem ouvir e de dez anos de lançamento, mesmo depois de ter amadurecido e crescido ainda canto com emoção e quase sem errar as letras. De repente a música “Nós Dois no Abismo” começou e o tom da minha voz desafinada se elevou instantaneamente. Quando parei para pensar em tantos momentos em que essa música me acolheu, foi impossível não me arrepiar de emoção, quase caí em lágrimas, mas me contive para curtir o momento.

Um grito abafado
Um choro contido
O mundo ao contrário
Nós dois no abismo
Mas não tenho medo

E quando o sol nascer
Se eu estiver longe então
Não vale me esquecer
Logo que puder, voltarei

Eu subo nas pedras
Escalo as paredes
Invado a cidade
Derrubo os muros
Mas não perco o rumo

E quando o sol nascer
Se eu estiver longe então
Não vale me esquecer
Logo que puder eu voltarei

Novo
Puro
Tudo, teu

E quando o sol nascer
Se eu estiver longe então
Não vale me esquecer
Logo que puder eu voltarei
Eu voltarei
Só por você

O mundo ao contrario
Nós dois no abismo
Mas não tenho medo

Replay, replay, replay. Meu Deus, como eu era boba! Chorava por assuntos de gente grande, sem saber do que se passava. Cantava essa música, sem nunca nem ter beijado na boca, pensando com carinho no menino que eu gostava. Hoje, sorri. Cantei e procurei alguém que desse novo sentido à letra. Achei: eu mesma. Fiquei tão contente com essa ligação que fiz de mim pra mim. Gabriella criança para Gabriella jovem adulta.


Cantei para minha criança, com lágrimas nos olhos, pensando que hoje eu voltei, enfim, pra mim. Voltei, enfim, a aceitar o que eu quero ser quando “crescer”. Hoje, dez anos depois do lançamento de Replay, dez anos depois de ter escrito meu primeiro poema, voltei pra pegar minha criança na mão e levar de volta à escola: “Vamos, Gabi, atrás do seu sonho.”. Espero que, daqui mais dez anos, eu ouça essa música novamente e a Gabriella adulta queira chorar mais ainda de orgulho dessas duas décadas que passaram.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Happy new year


Existem aqueles que adoram as festas de final de ano e também aqueles que não as suportam. Devo entender e até concordar com o ponto de vista dos dois grupos. O primeiro vê esperança, recomeço e oportunidade a cada ano que chega. O segundo vê hipocrisia, pois o recomeço está dentro de cada um e pode vir dia 16 de abril, por exemplo.

Concordo que esse punhado de feriado, comida gostosa, todo dia parecendo domingo, gastar o décimo terceiro todo em presentes complica e desgasta um pouco, logo, melhor deixar tudo para o ano que vem, quando essa correria passar. Então, lógico: no ano que entrar você vai guardar dinheiro, regular a alimentação, começar a faculdade... Meu Deus! São tantos planos que não da para começar agora, é preciso se organizar para janeiro.

Por outro lado, concordo ainda mais que a euforia de janeiro não dura cinco dias, logo você vai voltar a tomar refrigerante e gastar com fast food o dinheiro que ia poupar para trocar de carro. Então, de nada valeram tantas promessas e planos de vida nova. Ela precisa vir com vontade de verdade e pode aparecer em qualquer dia do ano. Ano novo só começa quando seus hábitos, sonhos e o que você vai fazer para alcançá-los forem novos também.

Não mude em janeiro, no seu aniversário, na segunda, no final do mês, no próximo pagamento, daqui dois dias. Mude assim que a vontade vier e antes que ela se vá novamente. Se você percebeu que algo está errado conserte enquanto há tempo, enquanto ainda é incômodo e não dor. Conserte assim que te roubar o sorriso. Conserte quinta-feira.

Todo dia é o ano novo de alguém que nasce, ou alguém que celebra mais um ano de aniversário, namoro, casamento. Ano novo é todo dia que você acorda para viver – e não sobreviver. Ano novo é aquela aula de jazz, aquele curso que você vai mudar na faculdade. Ano novo é cada oportunidade nova que você vai arriscar e se dedicar a fazer dar certo. Ano novo não começa necessariamente em janeiro. Faça-o começar quando você decidir. E a partir desse dia não faça menos do que correr atrás do mais importante na sua vida: a sua felicidade.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Costureira de palavras


Meu pai é modelista, cresci no meio de retalhos, espetando o dedo na agulha fazendo vestidos para minhas bonecas. Ele diz que fiz minha primeira "roupa" aos três anos de idade, vê se pode? Nem ia para escola, mas se metia no meio de panos e agulhas. Cresci vendo a paixão nos olhos dele com cada peça que fazia, cada pedacinho de pano que ele costurava e magicamente virava uma roupa sob medida para alguém, perfeita para uma só pessoa.

Por um tempo achei que quisesse ser costureira quando crescesse, até hoje às vezes penso que quero. Isso é mágico. Transformar o nada em qualquer coisa. Mas essa é a paixão dele, o dom dele, talvez não seja o meu. Costurar um terno todinho, ver que não agradou aos olhos, que o lado esquerdo está 7mm maior, desfazer tudo e costurar de novo, definitivamente não é pra mim.

Por outro lado, sozinha encontrei meu amor e, talvez, meu dom. Conheci a Pollyanna, o Marcelo, o Colin, o Harry, o Zezé, a Liesel, a Anne, incontáveis pessoas que me mostraram, cada um deles, um mundo o qual eu vivi por muito tempo. Um mundo o qual jamais esquecerei. Cada personagem, livro, texto, página, autor, crônica, poesia, cada frase e vírgula marca a minha alma de um jeito que não tem explicação.

Hoje me dei conta de que também costuro, desde os dez anos de idade, conforme mais costuro mais aperfeiçoo meu trabalho. Se não está bom eu apago, refaço, remonto, recrio, reinvento. Perco cinco horas em um texto, se precisar. Herdei o dom do meu pai, mas com matérias primas diferentes que fazem mágicas diferentes.

Nós dois damos vidas às coisas. Nós dois ligamos os pontos, nós dois perdemos horas em busca da perfeição. Cada vírgula deve estar no lugar, digo, cada ponto, ou melhor, as duas coisas. Ele cria mágica aos olhos, eu também. A mágica dele pode tocar o coração de alguém, a minha também. Ele costura retalhos, por vezes, palavras. E eu? Palavras e, por vezes, me arrisco nos retalhos.