quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Mudar


Mudar...
De casa, de vida, de rumo, de caminho.
Ser feliz com o que se tem e correr atrás do que se quer.
Andar descalça no asfalto depois da chuva, procurar montanhas para deitar a noite e olhar as estrelas, aguardando o nascer do sol.
Passear com o cachorro da vizinha, regar as flores do jardim do bairro. Cumprimentar todas as pessoas do ponto de ônibus. Ser boa pra quem precisar e pra quem não merecer.
Cantar as músicas preferidas enquanto se está limpando a casa. A casa da tua rua, mas principalmente, a casa da tua alma.
Dar importância as pequenas coisas da vida, do dia a dia, como aquele bom moço que cedeu lugar àquela senhora. Ou aquele olhar apaixonado entre o casal que passa rindo do seu lado. Perceber coisas felizes que você nem vê.
Achar um amor, caso não ache, que esse amor seja você. Se namore. Mas depois, caso ache um grande amor, viva-o, beije-o, leve-o para casa e durma com ele. Se entrelace a ele, jamais o deixe partir e, quando partir, se namore mais uma vez.
Em outra casa, mais uma vida, outro rumo, um novo caminho.
Se refaça sempre e recomece.
Mudar...

domingo, 6 de julho de 2014

Reamar


Será que amor é tipo doença? Dá e passa. Mas que algumas vezes fica conosco pra sempre (machucando) e temos que simplesmente aprender a lidar com isso?
Será que amor tem remédio? Porque eu sei que tem efeito colateral (como ficar bobo passageiramente). Será que amor é um veneno? Alguém me apresente, por favor, o antídoto.
Será que é possível então, me diz, esquecer alguém o qual se amou? Se esqueceu, amou mesmo? Mas se não amou, por que quando se estava junto parecia que nada mais precisava existir, a não ser a pessoa amada, ali, no seu colo.
Perguntas fáceis de fazer e difíceis de responder, por quê, por quê, por quê... Por que amamos e amamos de novo e de novo? Sabendo que vamos sofrer igual idiotas.
Talvez seja porque quando amamos nos sentimos vivos, então dane-se se no final vai doer, o caminho florido e ensolarado compensa uns dias de chuva. 
Estar com alguém ao nosso lado, poder amar o mesmo sorriso todos os dias, poder agradecer a Deus pela vida de alguém, essas coisas não tem preço e fazem qualquer dor posterior valer a pena. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A volta

Depositar a felicidade em cima do outro é o maior erro do ser humano. Ninguém é obrigado a ficar em nossas vidas para sempre, então se depositarmos em alguém nossa felicidade e mais: a nossa vida, estamos praticamente dando um tiro no pé.

Não falo porque ouvi muitos falarem não, pois saibam que eu ouvi, mas não acreditei, resolvi pagar pra ver (e me ferrei). É como firmar um prego na areia a chance de alguém ficar em nós por toda uma vida.

Depois que a pessoa vai embora nós quase vamos junto. E sair de si mesmo é o pior castigo. E depois, pra voltar pra casa, sozinho? Não se acha o caminho de volta facilmente.

Depois de muito tentar, achei o caminho e voltei a morar em mim. No começo é tão difícil ficar satisfeito com a própria companhia e ninguém mais. O silêncio faz barulho demais e sempre falta alguém pra fazer cafuné.

Mas enfim, depois de acostumar a ficar só, você se acha a melhor companhia e mal aceita quando alguém vem invadir a sua vida, que agora é tão sua.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Sonho de criança


Descobri por que a gente acha que não é feliz. Criança acha que pra ser feliz tem que morrer, não vê meio termo, ou vai ou racha, é agora ou nunca. Já os adultos precisam sofrer pra sustentar esses sonhos então, por tanta ocupação, muitas vezes acabam esquecendo de ser feliz. Adultos acham que se pode ser feliz amanhã, crianças sabem que não. Hoje é o último dia.

A gente tem que aprender a ser adulto por fora e gente pequena por dentro. É bom ser pequeno, quem disse que não? A gente cabe em qualquer lugar, em qualquer sonho. Tudo está bom e quando não tá a gente chora só um pouquinho que passa. Criança é tão pura que parece imaginação da gente, tão frágil que dá medo de tocar e ela evaporar.

Mas é verdade, ela evapora e vai embora. Seja um adulto que não toca na sua criança interior, eu te garanto, se você tentar domá-la ela foge! A criança que manda na casa, na vida, no sorriso, a tua criança sabe amar você, somente ela. E aprendendo com ela o significado de amar, você fica tão forte que ama o mundo.

Sonhe que o mundo cabe em suas mãos, sonhe que todos somos irmãos, sonhe que tudo que há na ficção é real, acorde sabendo que de alguma forma tudo aquilo é seu, porque seu pai te deu, então aceite sem reclamar e vá sofrer, mas sofra com o sorriso no rosto, pra sua criança não morrer jamais e ensinar ao mundo todo o poder do amor.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Realidade particular


O sofrimento pode ser o caminho através do qual chegamos às nossas verdades. A estrada pela qual chegamos à maturidade atravessa, necessariamente, a escuridão e a solidão. A escuridão, porque sofrer implica perder as referências, desdenhar das explicações, questionar os clichês e aventurar perguntas. A escuridão é o momento quando não caminhamos porque vemos, mas porque intuímos, recordamos e temos fé. Intuímos o rumo certo pelo tanto que já caminhamos, recordamos as experiências aprendidas em momentos semelhantes no passado e andamos por fé, que supera as trevas, prescinde de explicações e transcende as certezas.

A solidão é imprescindível na trilha do sofrimento. A dor pode ser compartilhada, mas jamais transferida. Pode ser percebida, mas não capturada. Pode até ser escondida, mas nunca suprimida. Quem sofre, sofre sempre em solidão. Não necessariamente porque lhe falta boa e providencial companhia, mas porque todo sofrimento pessoal, em sua dimensão mais profunda e essencial, é intransferível. O sofrimento tem sua realidade particular, e não pode ser diferente: cada um sofre por uma razão, é vitimado em áreas distintas, por motivos diversos e com respostas as mais variadas, num dégradé de resiliência que vai da meninice do chororô ao heroísmo quase estóico, incluído entre os tons das cores a grandeza da fé, resignada e esperançosa, e por isso engajada e mobilizadora.

O sofrimento desperta para o ético e o estético. Convoca virtudes adormecidas a que subam ao palco: coragem, perseverança, paciência, honradez, respeito à vida. Possibilita o lapidar do caráter, apara arestas, harmoniza as formas, faz irromper a beleza escondida na frieza do coração. O sofrimento quebranta orgulhosos, vaidosos e prepotentes, faz desmoronar intransigentes, legalistas e moralistas. Como o martelo do escultor, retira os excessos da pedra e dá à luz o belo, o sublime, o deslumbrante.

Quem sofre descobre seus limites, identifica verdadeiras amizades, vislumbra novos horizontes, abre a mente para novas verdades e o coração para novos amores. O sofrimento produz compaixão, evoca misericórdia, gera solidariedade. O sofrimento cria caminhos para arrependimentos e confissões, subverte juízos e sentenças, possibilita aproximações e reconciliações.

O sofrimento coloca homens, mulheres, velhos e crianças, de joelhos. Faz com que os olhos procurem os céus. Dilata a alma para o mistério, conclama o espírito para o inefável, inspira poesias e canções, faz surgir nos lábios o perfeito louvor. Quem sofre aprende a perdoar e pedir perdão. Ganha a oportunidade de colocar o rosto no chão, em clamor e oração. O sofredor jamais chora em vão. Deus habita também a sombra e a escuridão.

O sofrimento é o ônus do viver, o custo do amor, a paga pelo crescimento, o preço da maturidade. Viver é muito perigoso, já dizia Guimarães. Amar é muito precioso. Crescer é muito doloroso. Amadurecer é muito custoso. Crer é coisa de teimoso. O sofrimento diminui o poder da morte, dissolve a crueldade da indiferença, envergonha a pequenez da alma, desmascara o mundo de mentirinha da ingênua infância, quebra a maldição da incredulidade. Aceitar a realidade e inevitabilidade do sofrimento é escolher a vida, decidir amar, optar pela plenitude, apostar na fé.

Redigido por Airton Lucas.