terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Literatura x Psicologia


Constantemente me percebo procurando um tema para a próxima crônica e hoje conversando com um amigo sobre meus anseios acerca do futuro profissional, encontrei o tema bem na minha frente quando disse a ele a seguinte frase: “Então eu encontrei na Psicologia meio que o protagonista do meu primeiro amor.”. Pega um café e lê com calma que juro de dedinho que no final essa frase vai te fazer sentido:

Você, leitor assíduo (e imaginário), já sabe que o meu primeiro amor é a Língua Portuguesa (ou inglesa, ou francesa, ou japonesa...). Todas as maneiras poéticas, e nem sempre tão poéticas, que usamos para nos expressar e nos comunicar. Lendo e me arriscando nos escritos desde criança, não me sobra um pelo sobre o corpo quando leio, assisto ou escuto alguma demonstração artística que me toca a alma. É um sentimento tão forte que eu quero ir correndo mostrar pra todo mundo aquele texto/poema/livro/música/filme que me tocou tão profundamente.

Você também sabe que por esses caminhos e descaminhos que a vida nos leva eu saí de Letras e caí de supetão em Psicologia, né? E que eu simplesmente encontrei o caminho da minha vida profissional nesse curso. Eu já te disse em algum texto mais pessoal o quanto a Psicologia agregou às minhas crônicas, afinal, todas elas se tratam da mesma matéria prima: você-ser-humano. Caso não tenha dito antes, agora está esclarecido.

Porém, tem algo que você ainda não sabe: eu tranquei a faculdade e me mudei para os Estados Unidos (por que diabos, você que se encontrou em Psicologia, fez esta merda? – você pode se perguntar, eu particularmente me pergunto, às vezes). E eis aqui onde todos os meus problemas e insônias e indagações acerca do que estudar começaram, visto que é de senso comum que ou se é bom em várias coisas ou muito bom em uma coisa só.

Veja bem, jamais duvide do meu amor à Psicologia, menos ainda do meu amor à Literatura. Eis o que me aflige. Eu amo duas coisas completamente ligadas, mas que seguem rumos completamente diferentes e eu me vejo hoje, com os pés nos 25 anos, parada no meio do caminho pensando o que persigo: o ovo ou a galinha? Porque oras, se não existisse o ser humano pra quê diabos existiria a palavra? E se não fosse a palavra com quê diabos a gente iria se comunicar nesse mundo?! (Esse é um daqueles momentos que eu quero gritar pro mundo: olha que coisa mais linda esses dois assuntos tão interligados assim!!!).

Se eu escolho dedicar a minha vida às Letras, no meu imaginário, eis o que eu ganho: regras; respostas; descobertas; teorias; no geral coisas que você (ser humano) vai colocar em prática como e onde quiser, com a interpretação que quiser – isso é, se você quiser. Já se eu escolho dedicar minha vida à Psicologia, no meu imaginário novamente, eis o que eu ganho: exceções; perguntas; explicações e descobertas de novos padrões; no geral coisas que você (ser humano) faz, querendo ou não fazer, entendendo ou não o porquê.

Analisando o meu ideal de atuação, meu amor pelo ser humano é (quase milimetricamente) maior que o meu amor à palavra; ainda não sei te dizer se irei perseguir o ovo ou a galinha, mas posso te garantir que eu seria uma poetisa frustrada em não ter sido também psicóloga; mas eu serei a psicóloga mais realizada profissionalmente se eu conseguir conciliar meus dois grandes amores. Agora, na pior das hipóteses, se eu tiver que escolher entre apenas um grande amor e me tornar apenas uma admiradora secreta do outro; apesar de ter crescido entre palavras, apesar de ter sido o meu primeiro grande amor, a literatura que me perdoe, mas eu estudo a poesia viva.

sábado, 15 de setembro de 2018

Bloqueio Criativo


"Bloqueio criativo é um fenômeno envolvendo a perda temporária da habilidade de continuar a gerar conteúdo, geralmente por falta de inspiração ou criatividade."

Escrevo há pouco mais de uma década e sofro desse mal antes mesmo de tomar consciência de que escrevia; hoje me deu saudades de falar sobre alguma coisa e, por que não sobre isso?

Lembro-me do meu primeiro bloqueio, eu ainda não tinha meu blog e salvava todas as minhas crônicas no meu computador, aqueles brancos de tubo, que a gente conectava na Internet discada e protegia o computador com capas plásticas, lembra? Um belo dia ele decidiu descansar em paz e eu perdi todos os meus textos. Passei seis meses em luto por isso, remoendo e repensando cada palavra e vírgula que eu havia perdido. Quando voltei a sentir a necessidade de escrever, criei o blog para que as chances de perder meus textos novamente fossem drasticamente reduzidas – não vamos dizer extintas, porque nunca se sabe quando uma plataforma resolve sair do ar.

Meu segundo grande bloqueio foi quando cheguei à conclusão (depois de muito ler e pensar em paranoias desnecessárias) de que tudo já havia sido escrito. Absolutamente tudo. Então, passei alguns meses pensando que eu tinha um dom/hobby/amor por algo “desnecessário”; todas as histórias que foram e continuam sendo contadas são e sempre serão as mesmas, por mais que eu me empenhasse em algum trabalho e modificasse sutil ou drasticamente o enredo, eu sentia que não estava fazendo nada de novo, e isso me desmotivava. Mas percebi que, apesar disso, a agitação interna de querer explicar, mais uma vez e sob outros pontos de vistas, era maior do que o desconforto em saber que alguém já havia estado ali antes. 

Então, pela terceira vez, fui bloqueada após três semestres cursando Psicologia, onde minha visão de mundo havia começado a se modificar e, inquestionavelmente, meu vocabulário também. Ao mesmo tempo em que eu gostava de ter um novo repertório e uma nova linha de raciocínio nos meus textos, eu já não me reconhecia neles ao finalizá-los; esse bloqueio perdurou um ano. Escrevi com uma frequência pequena, mas boa o suficiente para que eu aceitasse e aprendesse que aquele era o meu estilo de escrever, por assim dizer, a partir de então. E mais, aceitei que isso vai mudar constantemente com o passar dos anos e nada posso fazer a respeito. 

Pela quarta e última vez (por enquanto, pois é o bloqueio onde ainda me encontro) foi quando eu percebi que já não havia motivos para escrever suficientes que suprissem a minha vontade de fazê-lo. Eventualmente, como agora, sinto a necessidade de escrever à quem me lê como alguém que escreve à um amigo, sem um enredo elaborado, sem dizer sobre um coração partido ou transbordando de amor, apenas compartilhar uma informação; seja ela uma banalidade do meu dia ou uma angústia que me inquieta. Mas eu, que passei minha primeira década com o olhar distante de quem me lê, sem realmente trocar uma ideia, sem falar informalmente, sempre te fazendo sentir meus textos como se fosse uma sensação sua, e não minha, me vi completamente perdida.

Agora, por exemplo, fico me questionando se você está pensando algo como: "Que legal! Conhecer a parte mais humana e menos a poética.", ou se realmente já não está pensando nada, pois não consegui prender sua atenção até aqui (se for esse o caso, me desculpe, mas preciso fazê-lo primeiro por mim). Em todo caso, se esse bloqueio vai passar, como os anteriores, ou se me adaptarei a ele, como o último, só o tempo para nos dizer. Talvez eu aceite um meio termo e siga sendo não só alguém que descreva uma emoção sua, mas também alguém que compartilha as próprias emoções.

Por hora, posso dizer que com todos os meus bloqueios – porque sim, existiram outros que duraram um pouco menos e não tiveram um impacto para que eu me lembrasse com o passar dos anos – aprendi algumas coisas: 1) Eu nunca vou deixar de me encantar com a escrita, com o poder de tocar e ser tocada pelo outro, pela beleza que eu enxergo em cada vírgula, poema, página em branco, reticências... 2) E enquanto eu puder vou continuar fazendo, ainda que só para mim, pois é a minha maneira de lidar com o mundo. 3) E, caso eu esbarre em alguém que seja tão apaixonado – leia: louco – por um encantamento tão banalizado e esquecido que é a literatura (seja ela extraordinária ou humildemente a minha), por um segundo ou dois a sensação será a de que minha alma trocou de casa por alguns segundos, de que eu encontrei o motivo pelo qual eu comecei a escrever, ainda criança; de que eu reencontrei a Gabriella que passava horas, dias, enfiada em páginas e páginas e chorou todas as vezes que foi ao Museu da Língua Portuguesa... Isso, ouso te chamar de meu amigo, não tem preço. 

Mas, em todo caso, se algum dia eu desistir de escrever, voltarei ao meu segundo bloqueio em paz, afinal, tudo já foi escrito.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Pensamentos e um café

Sentada, tomando uma xícara de café e divagando, olhei para a parede e dei de cara com uma foto minha – uma das minhas preferidas: de perfil, com o riso fácil, olhando o horizonte, com os cabelos ao vento. E era como se eu ouvisse aquela versão de mim, dizendo a mim mesma: “Sorri menina, esse sorriso é tão elogiado e não é à toa, olha esse mundo de oportunidades e possibilidades à sua volta, corre para conquistar os sonhos que ainda não conquistou e sonhe o mais alto que puder.” Dei um soco na mesa. Desculpe, não consigo controlar meus sentimentos muito bem. Ainda. Porém, consegui segurar as lágrimas dentro dos olhos e corri para o computador para escrever antes que eu me esquecesse.

Com o pensamento acelerado, não consigo distinguir muito bem o que eu espero de mim mesma, nesse momento dizem que só posso aproveitar o luto. Percebi que ele é o meu próprio luto, me doei, modifiquei e apaguei tanto de mim mesma que agora o vazio me desespera. Tenho uma pasta no computador cheia de textos pela metade; na estante, cinco livros me esperam para contar como terminam suas histórias; minhas matérias da faculdade estão entre 70% e 98%, não concluo nenhuma. E hoje me desafiei a terminar algo: esse texto – ou lembrete, carta, aviso – a mim mesma. Não sei se esse problema que passei a ter com conclusões tem a ver com o fato de que não consigo mais me concentrar sozinha, ou se é justamente o contrário, me tornei dependente de sempre ter algo que dependa de mim.

Mas, me esqueci do mais importante, eu já tenho algo que depende 100% de mim: eu mesma. Aquela menina sorridente da foto me olha com ternura, como se estivesse orgulhosa por tudo que já conquistei de lá para cá, e dizendo para eu ter calma e prestar atenção em cada flor e pedra no meu caminho, pois quando eu olhar para trás irei me orgulhar das pequenas alegrias dos meus dias e dos grandes ensinamentos que tirei dos momentos difíceis. Ela me diz também: “Não abra mão de tudo o que compõe o que você é por ninguém, pois os caminhos se cruzam e descruzam ao longo da vida, mas só você mesma estará lá do começo ao fim.” Acho que devo começar a ouvi-la, afinal.

Ontem eu ri na cara do perigo. Olhei dentro dos olhos de um – atualmente – amigo. O mesmo amigo que há alguns anos foi embora da minha vida e me levou junto, não havia sobrado nada de mim para contar a história. Hoje, cinco anos mais madura (e calejada) eu o olhei dos pés a cabeça e me orgulhei da mulher que me tornei desde que ele foi embora e me levou consigo, do quanto eu consegui me reinventar e me superar. Penso que se eu consegui me achar em um momento onde achei que não havia sobrado nem eu mesma; consigo agora, mesmo com meu peito doendo como se tivessem arrancado meu coração com as mãos, igual a bruxa da Branca de Neve faz.

No final das contas, percebo que somos eternos aprendizes, nosso eu do passado nos olha com orgulho do que somos e nosso eu do futuro nos olha com ternura e paciência. Se pudéssemos pular os maus bocados da vida, quase nada sobraria. Essa mesma menina de riso fácil me espera lá na frente, rindo do quanto eu chorei por isso tudo; mas ela nada pode fazer, além de me observar passar por tudo isso. Bom, hoje eu salvo esse documento, desligo meu computador e volto ao meu café. Quem sabe aquela menina da foto não me conte mais algumas coisas. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sonho x medo

Você já teve uma paixão platônica? Alguém que você idealiza um relacionamento perfeito de conto de fadas, mesmo não a conhecendo a ponto de saber se seria realmente tudo aquilo. Onde a graça é justamente essa, ser apenas fruto da sua imaginação e pronto, qualquer pitada de realidade estragaria tudo.

Sou assim com meus maiores sonhos. Hoje tenho maturidade (e, talvez, conhecimento) para entender que saboto meus planos antes mesmo de colocá-los em prática. "Por que?!" Você me pergunta. Por medo do potencial fracasso, concluo agora. Mesmo sabendo que se eu não fizer nada eles não se tornarão realidade, sei que começar alguma coisa pode fazer com que eles deixem de ser sonhos.

Com isso, abro novos caminhos. Comecei um curso diferente, o qual nunca sonhei, e chego aqui no motivo desse texto: oportunidade. Estou a caminho do quarto semestre, vejo que por fim estou criando raízes na faculdade, olho o longo caminho pela frente com ansiedade e alegria, imaginando a psicóloga que serei. Isso tudo porque, me atrevo a dizer: eu não tive, nem tenho, medo.

Lidar com o maior sonho da minha vida, equivale a lidar com o risco do maior fracasso da minha vida também. Nunca sonhei ser psicóloga, então dou o melhor de mim para essa formação, sem nenhuma expectativa em cima disso, e me torno a cada dia a melhor psicóloga que poderia ser. Agora, escritora, quanto mais eu sonho com meu livro, mais pressão coloco em mim mesma, sobre cada vírgula nova que escrevo.

E isso tudo me faz deixar, ano após ano, o sonho da faculdade de Letras e o de colocar no papel meu primeiro - e tão idealizado - livro em standby. Mesmo sabendo o quão errado isso é e que, acima de talento ou dom, escrever é minha alegria; continuo mantendo em cativeiro o protagonista do meu primeiro romance. Você nem imaginaria, mas ele tem medo de que eu desista antes de poder contar a você a história dele.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Engrenagem


Acordei às dez horas e fui ao mercado. Voltei, comecei a arrumar a casa e a colocar em dia algumas coisas pessoais. Sentei-me para tomar um café e então percebi que já eram sete da noite, e que era a quarta vez que parava para comer. Assustei-me ao notar como nosso tempo voa enquanto nos mantemos ocupados com coisas que gostamos.

Pensei no varal cheio de roupas que havia acabado de estender, e me lembrei que antes disso eu havia precisado recolher as que já estavam secas. Rindo, me perguntei quando é que aquele varal estaria sem roupa alguma, até que conclui que a resposta seria nunca.

Comparei uma casa a uma engrenagem. São infinitas coisinhas que precisam ser refeitas dia após dia, mas em uma ordem onde nada vai acabar junto. O ciclo: cozinhar, lavar, passar, limpar, guardar (...) não é sequencial. Enquanto a louça está limpa, o quarto já está por varrer; quando a roupa está no varal, já é necessário limpar o fogão.

Você deve estar se perguntando porque, em pleno sábado, estou falando sobre cuidar da casa. Permita-me explicar: cresci entre dois extremos. Filha de uma amizade colorida, sempre tive duas casas, uma com um pai extremamente metódico, para não dizer perfeccionista; e outra com uma mãe extremamente esquecida, que não se incomodava tanto com bagunça.

Com isso, nunca percebi a mágica na funcionalidade de uma casa. Em alguns dias da semana eu precisava decorar o ângulo certo de cada coisa em cima da mesa, antes de retirá-la, para poder voltá-la ao mesmo lugar. Em outros, eu largava o tênis na sala e uma meia em cada cômodo. Eu ajudava a cuidar de ambas as casas, porém com ciclos e rotinas completamente diferentes.

Hoje já não moro com meus pais nem sou mais criança. Admito o quão difícil é manter a casa “um brinco”, como diriam nossas avós. A frase: “Uma casa limpa é uma casa sem vida” nunca fez tanto sentido para mim como agora. É um conjunto de manias habitando o mesmo espaço – caso você more sozinho, considere seus níveis de humor – com costumes e tempos diferentes, fazendo a engrenagem rodar.

Não pense que quis dizer que gosto de bagunça, muito pelo contrário. Disse que, por gostar tanto de estar em um ambiente agradável, vi mágica até no organizar. Porque esse ciclo, que exemplifiquei acima, nada mais é que a vida no dia a dia dessa casa, as peças funcionando juntas. A louça do jantar foi limpa e o quarto varrido, enquanto eu acabava de repousar minha xícara de café na pia.